18 de outubro de 2020

Erotismo e sensualidade na poesia de Cruz e Souza

                                                   


DILACERAÇÕES

Ó carnes que eu amei sangrentamente,
ó volúpias letais e dolorosas,
essências de heliotropos e de rosas
de essência morna, tropical, dolente...

Carnes, virgens e tépidas do Oriente
do Sonho e das Estrelas fabulosas,
carnes acerbas e maravilhosas,
tentadoras do sol intensamente...

Passai, dilaceradas pelos zelos,
através dos profundos pesadelos
que me apunhalam de mortais horrores...

Passai, passai, desfeitas em tormentos,
em lágrimas, em prantos, em lamentos
em ais, em luto, em convulsões, em dores...

Esse soneto  é um belo e típico exemplo do erotismo maldito de Cruz e Sousa. Note que ele faz, na primeira estrofe, uma invocação, ainda que vaga, a carnes que amou “sangrentamente”.
Se unirmos essa ideia ao título do poema e aos sinônimos em gradação da última estrofe, descobriremos uma mistura entre amor, dor e sofrimento.
Estaria o poeta expressando seus impulsos sádicos? Ou estaria relatando a perda da virgindade? Difícil descobrir, já que se assume aqui o típico tom impreciso, vago dos simbolistas.

ENCARNAÇÃO

Carnais, sejam carnais tantos desejos,
Carnais, sejam carnais tantos anseios,
Palpitações e frêmitos e enleios,
Das harpas da emoção tantos arpejos...

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
À noite, ao lugar, entumescer os seios
Lácteos, de finos azulados veios
De virgindade, de pudor, de pejos...

Sejam carnais todos os sonhos brumos
De estranhos, vagos, estrelados rumos
Onde as Visões do amor dormem geladas...

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
Formem, com claridades e fragrâncias,
A encarnação das lívidas Amadas! 

 Enfatizando a temática sexual, esse soneto mostra a violenta atração do poeta por imagens de forte sensualidade, repetidas vezes, como nos versos: “Carnais, sejam carnais tantos desejos”. Essa carnalidade explícita é suavizada na figura das “lívidas Amadas”, embora reforcem a sua obsessão pela cor branca e por tudo aquilo que lhe sugere brancura: “...os seios lácteos, de finos e azulados veios...”. A imagem se completa com a sinestesia provocada pelos versos: “sonhos, palpitações desejos e ânsias / Formem, com claridades e fragrâncias...”. A cor e o cheiro se fundem como elemento essencial do erotismo – cujo desejo nunca foi plenamente realizado.

3 de janeiro de 2020

O formato Mulher na lírica feminina modernista



"Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda."
(Luísa Neto Jorge)

A partir dos anos quarenta do século XX, as poetisas começaram a ser uma presença marcante nos domínios do Modernismo português, partilhando um espaço até então ocupado predominantemente por poetas do sexo masculino. Aos poucos, o meio literário começou a ser invadido por figuras notáveis que se estreavam nas letras sob a ovação da crítica e do público leitor. 
Incluídas em revistas ou à margem delas, as poetisas irromperam na cena literária portuguesa do século XX não só em quantidade surpreendente como em qualidade excepcional. Dentre elas são dignas de nota, especialmente as que, com suas obras não apenas defenderam a qualidade do que produziam, como impuseram o reconhecimento da maioridade estética da poesia feminina e legitimaram o direito à cidadania das mulheres no Parnaso Lusitano. 
Nas obras destas poetisas, além da evidente identificação com as “novidades” estéticas e temáticas trazidas ou ressuscitadas pela revolução modernista, avulta a retomada do discurso erótico inaugurado no lirismo feminino português por Florbela Espanca e Judith Teixeira. 
Tal retomada, porém, não significa necessariamente uma consciente continuação do que já fora feito pelas duas poetisas. Talvez deva-se mais a uma tomada de consciência por parte das mulheres do quanto ainda havia de repressão no que toca a expressão da sexualidade feminina, seja na vivência íntima de cada uma, seja do próprio discurso literário, amordaçado para qualquer manifestação erótica por parte dos ideólogos e defensores da moral e dos bons costumes do regime salazarista. 
As feministas portuguesas, dentre as quais militavam várias poetisas e escritoras, foram as primeiras a correrem o risco de desafiar a censura oficial, como Natália Correia com a Antologia da poesia erótica e satírica (1966), que lhe valeu uma ordem de prisão sob a acusação, pela justiça salazarista, de organizar e publicar uma obra pornográfica. 
O rumoroso escândalo envolvendo a escritora em vez de provocar um recuo por parte dos escritores de ambos os sexos, incluídos na referida antologia, resultou num estimulo à transgressividade e à rebeldia, não importando, principalmente às ousadas poetisas, se suas obras seriam confiscadas ou não pela polícia. Tanto assim foi que, em 1974, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho Costa, tiveram a ousadia de publicar o romance As novas cartas portuguesas, no qual as três autoras procuravam resgatar a sexualidade reprimida de Sóror Mariana Alcoforado. Pelo atrevimento, as três escritoras tiveram que enfrentar o processo das “Três Marias”, como ficou conhecido, levantado pelos os censores oficiais. Todavia, no mesmo ano, Maria Teresa Horta publicou o seu livro de poesias – Nossa senhora de mim – que lhe rendeu novos problemas com a censura oficial.
A luta das feministas pela emancipação das mulheres, a consciência reivindicatória de direitos paritários aos dos homens, que tinham nestas escritoras ardorosas militantes, subjazem às suas audácias literárias. 
As poetisas das derradeiras décadas do século XX já não se adequavam ao desgastado figurino da poesia confessional, da expressão sentimental, mas das vezes voltado para a retórica da infelicidade, da dor e das lágrimas. A poesia que surgiu da geração de mulheres surgida após a revolução modernista, nutrira-se na seiva de uma consciência mais aguçada acerca da realidade do amor, da verdade do corpo, do direito de ser mulher e, principalmente, da urgência de um grito de independência, de busca da plena liberdade de expressão. O lirismo feminino assumiu uma dimensão vivencial, revelou-se na plenitude de sua humanidade e temporalidade. Esta poesia quase não fala de dor, fala de amor, de prazer, de felicidade. Nela a expressão do amor sensual é uma “festa do corpo”, como testemunha Rosa Lobato de Farias:

Outra coisa que o corpo há quem conheça.
Eu não. Somente nele me cumpro viva.
Poema, beijo, estrela, afago, intriga
só no corpo me são pés e cabeça.

E coração também que às vezes teça
Razão de me saber mais que a medida
Nessa trágica trama tão antiga
A que chamam ficar de amor possessa.

E é de novo poema, beijo, afago.
É de novo no corpo que te trago
A exótica festa da nudez

E tudo quanto sinto e quanto penso
Toma corpo no corpo a que pertenço
E aqui estou: de barro, como vês.

Derrubadas as barreiras da interdição, implodidos os códigos da repressão à expressão da sexualidade, dificilmente a linguagem poética feminina voltaria a submeter-se aos rigores da repressão e da censura.



25 de julho de 2016

Triunfo Supremo, soneto de Cruz e Sousa



Quem anda pelas lágrimas perdido,
Sonâmbulo dos trágicos flagelos,
Não quem deixou para sempre esquecido
O mundo e os fáteis ouropéis mais belos.

Não quem ficou do mundo redimido,
Expurgado dos vícios mais singelos,
E disse a tudo o adeus indefinido
E desprendeu-se dos carnais anelos!

São quem entrou por todas as batalhas
As mãos e os pés e o flanco ensanguentado,
Amortalhado em todas as mortalhas.

Quem florestas e mares foi rasgando
E entre raios, pedradas e metralhas,
Ficou gemendo mas ficou sonhando !

Neste soneto, de modo belíssimo, Cruz e Sousa coloca a capacidade de sublimação do ser humano e a capacidade de vencer tudo aquilo que foi na sua vida realidade: “Quem anda pelas lágrimas perdido, sonâmbulo dos trágicos flagelos…” Aqui também, do ponto de vista literário, estão todos esses valores que se encontram na poesia do Simbolismo.
Cruz e Sousa tem uma junção única na poesia brasileira – talvez Afonso Guimarães, seu companheiro de poesia simbolista, também o tenha -, uma fusão indefinível entre o Romantismo, estilo anterior a ele, o Simbolismo, sua marca, e o Parnasianismo.
O Parnasianismo é contemporâneo do Simbolismo. O Parnasianismo busca a pureza da forma, a palavra como expressão exclusiva da beleza. Inclusive, critica-se no Parnasianismo o predomínio da forma até sobre o tema, o conteúdo. E, no entanto, o Parnasianismo é um dos momentos mais elevados da poética brasileira.
O Modernismo, que se voltou violentamente contra esse estilo de poesia em 1922, negava ao verso a grande eloquência, negava ao verso o direito à busca da beleza pura, negava ao verso a forma estrita do soneto, a forma estrita da métrica, a forma estrita da rima, porque buscava libertá-lo do que chamava peias que o impediam de expandir-se do ponto de vista da expressão. A verdade é que o Simbolismo abre novos caminhos, como é verdade que esse tempo faz uma poesia absolutamente notável.

21 de abril de 2016

O Amor na lírica de Camões

"E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos."
Camões
A tematização do amor, na lírica maneirista, segue duas tendências inteiramente opostas: uma que se manifesta como imagem negativa e condenatória do amor carnalmente consumado, da expressão sensual do desejo amoroso; outra, derivada da idealização neoplatônica, que o revela em termos os mais positivos. A primeira tendência domina quase inteiramente o espaço poético, acentuando-se o seu cultivo a partir das três últimas décadas do século XVI; a segunda, menos privilegiada pelos poetas, irrompe com mais frequência na poesia de Camões, como será mostrado mais adiante, gerando tensões e contradições no conjunto de sua lírica. Como explica Maria Vitalina Leal de Matos, a obra lírica de Camões “desenvolve-se toda ela em permanente antagonismo entre pólos opostos: sensibilidade e inteligência, amor sensual e amor espiritual, inocência e sentimento de culpa, humildade e orgulho são algumas das tendências opostas que solicitam em sentidos contrários essa poesia, fazendo dela o cenário de conflitos dolorosos onde sempre se procura a solução, o equilíbrio, a conciliação que raramente se encontra [...].
Em relação aos principais temas que o estimulam, Camões é levado a imaginar um modelo ideal, teórico: de perfeição, de racionalidade, de plenitude; mas a experiência desmente e desmorona essa construção da consciência. Então o poeta encontra-se dilacerado porque não pode deixar de aderir à tese que elabora e à antítese da experiência que a nega; na maioria dos casos sente-se incapaz de escolher; e quando escolhe, escolhe dividido, consciente de que metade de si lhe fica no que rejeita.” . ( Maria Vitalina Leal de Matos, A lírica de Camões, p.19).
Assim, acrescenta a autora, na vertente da lírica camoniana que tematiza o sentimento amoroso, o antagonismo mais evidente radica na “coexistência do amor sensual – expresso em termos de um erotismo muito audacioso, e do amor espiritual de feição platônica que parece tudo dispensar da presença da amada, até mesmo o vê-la”, na certeza de “que nunca Amor se afina, nem se apura,/ enquanto está presente a causa dele”.(Id. Ibidem).
Nas poesias líricas dos poetas maneiristas que desenvolvem o tema do amor sensual, o que se observa, de modo geral, é a reiterada expressão de uma visão superlativamente sombria da experiência amorosa. Nela, o amor se configura como agente da acentuada instabilidade afetiva e emocional do amante, de aflitiva insegurança e de incertezas, como núcleo dinamizador de permanente desequilíbrio que arrasta o poeta a situações de natureza sumamente contraditória, senão oposta: alegria / tristeza; esperança/ desespero; engano/ desengano; amor/ ódio, etc.
Como ocorre nas obras poéticas dos seus contemporâneos, também em sua lírica Camões prodigaliza exemplos dos malefícios do amor. Na opinião do poeta, “não pode no mundo haver tristeza/ em cuja causa Amor não tenha parte”. Daí a sua indagação aos que sofrem padecimentos amorosos: “se das dores de amor sois maltratados,/ porque tanto buscais de amor as dores?”
Toda essa vivência negativa tem como consequência o desconcerto sentimental do homem enamorado, resultando em expressões de recusa ou de execração do amor, da experiência amorosa, da qual derivam dor e frustração constantes. O discurso que radica na experiência do amor denuncia, com cores fortes, os malefícios e os desenganos, as causas e os efeitos do drama amoroso. O amor sensual, consumado ou não no plano da experiência carnal, quando não é tragicamente ensombrado por toda sorte de males, revela-se irremediavelmente implicado com a saudade, a insatisfação, a perda através da morte ou da ausência física, com o sentimento da culpa e do pecado. Desse modo, o pathos amoroso dinamiza o campo subjetivo dos poetas a partir da experiência já vivida e da ausência da mulher amada, nutrindo-se das lembranças do passado, fazendo desse ser eleito pelo coração e da própria felicidade, perdidos no tempo e na distância, o objeto das suas reminiscências. Não importa se é uma ausência em razão de uma separação imposta pelo distanciamento no tempo ou no espaço, se é uma ausência causada pela morte ou pela perda da reciprocidade amorosa, o fato é que jamais o homem e a mulher caminham juntos, de mãos enlaçadas; jamais se encontram diante um do outro, mergulhados na horizontalidade do olhar de um no olhar do outro.
Daí os discursos da frustração: todo amor acaba no drama da separação ou da saturação; a amargura sucede irrecorrivelmente ao prazer; a alegria cede lugar à tristeza; o engano remete ao desengano e, deste, à melancolia, ao desespero, à descrença. Emerge sempre dessa situação um lirismo subjetivo, prenhe de confessionalismo e confidências reveladoras da aflição e da mágoa, do desespero e da angústia, dos enleios do sonho, que revestem na sua expressão um timbre de melancólico desalento e amarga resignação:

Quem vos levou de mim, saudoso estado, 
que tanta sem-razão comigo usastes? 
Quem foi por quem tão presto me negastes, 
esquecido de todo o bem passado? 
Trocastes-me um descanso em um cuidado 
tão duro, tão cruel qual me ordenastes; 
a fé que tínheis dado me negastes, 
quando mais nela estava confiado. 
Vivia sem receio deste mal. 
Fortuna, que tem tudo à mercê, 
amor com desamor me devolve. 
Bem sei que neste caso nada vale, 
que quem nasceu chorando, justo é 
que pague com chorar o que perdeu. 

A melancolia e a angústia derivadas da mundividência maneirista atravessam toda a poesia que tematiza o amor sensual, denunciando a já aludida visão negativa do amor cultivada pelos poetas, que parecem não admitir a possibilidade de o amor ser uma experiência enriquecedora vivenciada em um clima de comprazimento, de alegria e de intensidade erótica, na plenitude do gozo e na legitimidade da fruição do prazer carnal. Muitos dentre eles, principalmente na fase finissecular do Maneirismo, passaram a cultivar a equivocada concepção de que o amor humano só propicia a frustração e a dor do desengano, o sofrimento, a tristeza e o aniquilamento moral e afetivo do homem. 
Na obra de Diogo Bernardes, por exemplo, não há um só verso indicativo da alegria nascida da satisfação de um anseio amoroso. É sempre ele que, ardendo na chama de uma paixão não retribuída, se dirige à mulher amada, em termos de respeitoso queixume ou de magoada súplica: “Quantas penas, Amor, quantos cuidados, / Quantas lágrimas tristes, sem proveito, [...] Quantos mortais suspiros derramados, / Quantos males enfim tu me tens feito”. (Diogo Bernardes, Flores do Lima, p. 45) 
Camões não fica aquém dos seus contemporâneos, quando se trata de expressar os males que sofreu ao longo da vida por causa do amor. Mesmo quando se queixa reiteradamente da perseguição da “inexorável Fortuna” e dos próprios “erros” cometidos, que tantos padecimentos lhe trouxeram, o poeta culpabiliza o amor por suas vicissitudes amorosas. Ele é a causa das suas frementes angústias, padecimentos e agitações interiores. Vários sonetos abordam o tema:

Erros meus, má fortuna, amor ardente 
Em minha perdição se conjuraram; 
Os erros e a fortuna sobejaram, 

Que pera mim bastava amor somente. 
Tudo passei; mas tenho tão presente 
a grande dor das cousas que passaram, 
que as magoadas iras me ensinaram 
a não querer já nunca ser contente. 
Errei todo o discurso dos meus anos; 
dei causa [a] que a fortuna castigasse 
as minhas mal fundadas esperanças. 
De amor não vi senão breves enganos 
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse 
este meu duro Gênio de vinganças! 

Oh! Quão caro me custa o entender-te, 
Molesto Amor, que só por alcançar-te, 
De dor em dor me tens trazido a parte 
Onde em ti ódio e ira se converte! 
Cuidei que, pêra em tudo conhecer-te, 
me não faltasse experiência e arte; 
agora vejo na alma acrescentar-te 
aquilo que era causa de perder-te. 
Estavas tão secreto no meu peito, 
que eu mesmo, que te tinha, não sabia 
que me senhoreavas deste jeito. 
Descobriste-te agora; e foi por via 
que teu descobrimento e meu defeito, 
um me envergonha e outro me injuria. 

Nem sempre o amor é apresentado na lírica camoniana em consonância com as doutrinas neoplatônicas, ou seja, como um princípio de harmonia e via de ascensão espiritual do homem. Ao contrário disso, nela o amor apresenta características e qualificações que denunciam o seu caráter disfórico. Na Écloga II, por exemplo, o poeta põe nas falas de Agrário toda a linguagem da descrença na bondade do amor, concebido como uma entidade maléfica, portadora de tormentos, insânia e toda sorte de infortúnios:

Não é amor, se não vier 
Com doudices, desonras, dissensões, 
Pazes, guerras, prazer e desprazer, 
Perigos, línguas más, murmurações, 
Ciúmes, arruídos, competências, 
Temores, mortes, nojos, perdições. 
Estas são verdadeiras experiências 
De quem põe o desejo onde não deve, 
De quem engana alheias inocências. 
Mas isto tem Amor, que se escreve 
Senão onde é ilícito e custoso; 
E onde é mor o perigo mais se atreve. 

Contrapondo-se à visão sombria e negativa do amor, antes referida, os neoplatônicos recusam os atributos maléficos desse sentimento, considerando-o, como esclarece Vítor Manuel de Aguiar e Silva, como um bem não contaminado “princípio de ascensão espiritual e de redenção individual e cósmica.”( Vítor Manuel de A. e Silva, Camões, labirintos e fascínios, p. 169.) Assim sendo, o amor, segundo a doutrina neoplatônica, relaciona-se com a inteligência divina e, como tal, é em sua essência um sentimento harmonioso e sereno, uma força capaz de encaminhar o homem ao conhecimento e conduzi-lo a um estágio elevado de aperfeiçoamento. 
“Por conseguinte, no âmbito da doutrina neoplatônica ou de uma doutrina neoplatonizante do amor, não são logicamente concebíveis a condenação fundadas em razões éticas, metafísicas e religiosas, do amor, nem a expressão do arrependimento e do remorso por se ter vivido, na plenitude harmoniosa da sua dimensão humana e da sua dimensão divina, o sentimento amoroso.”(V.M.A.e.Silva. Op cit. p 225) 
O eros platônico nasce da visão do belo. Todavia, tal beleza está para além das qualidades e aparências que o vulgo valoriza, ou seja, o conjunto de atributos físicos da amada. No amor platônico, o sujeito enamorado transcende à visão meramente exterior da mulher, para enxergar somente “a graça pura,/ A luz alta e severa,/ Que é raio da divina fermosura,/ Que na alma imprime e fora reverbera”. É essa beleza excelente, pura, reminiscência e participação da beleza absoluta, da beleza que está na alma; é, enfim, como Camões tenta definir:

Aquele não sei quê, 
Que aspira não sei como, 
Que, invisível saindo, a vista o vê, 
Mas pera o compreender não lhe acha tomo.

Se o eros platônico tem a sua gênese na contemplação da beleza absoluta, que se fixa “no pensamento como idéia”; se é manifestação do “Amor, que o gesto humano na alma escreve”, então ele, como força atinente a uma faculdade divina da alma, é imune à morte, “porque, enfim, a alma vive eternamente, / E amor é efeito de alma, e sempre dura” Nesses termos, a vivência do amor platonicamente sentido escapa à substância material do ser amado, independe de sua presença física, como sugerem os versos camonianos que se seguem: 

*E aquela humana figura
Que cá me pôde alterar 
Não é quem se há de buscar: 
É raio de formosura 
Que só se deve de amar. 

Que os olhos, e a luz que ateia 
O fogo que cá sujeita, 
Não do sol, nem da candeia: 
É sombra daquela idéia 
Que em Deus está mais perfeita.

É praticamente na poesia de Camões que a visão neoplatônica do mundo, do homem e do amor irrompe de forma precisa, ao contrário do que se observa nos poetas seus contemporâneos. Nas obras destes, o que se constata é a manifestação sistemática de uma noção acerca do amor inteiramente contrária à noção neoplatônica, à qual se soma uma evidente reduplicação do discurso ideológico religioso agostiniano, como será visto mais adiante. 
Apesar de a expressão do amor neoplatônico ser privilegiada reiteradamente e quase com exclusividade nos domínios da lírica camoniana, é pertinente a inserção do “amor idealizado” entre os temas específicos da poesia maneirista, principalmente considerando-se a qualidade indiscutível do discurso poético de Camões e o reconhecimento do poeta como figura exponencial do Maneirismo português. 
Sem ser discrepante ou contraditório, Camões organiza a sua lírica através de duas vertentes, ou seja, uma que se volta para a expressão do amor sensual, com todos os males que lhe são inerentes, fruto da experiência do poeta, e de outra que se orienta para a expressão do amor idealizado, haurido na lição neoplatônica. Essa contraditória situação não parece ter passado despercebida ao poeta, que, em uma das suas canções, alude às duas tendências amorosas que em seu íntimo rivalizam e disputam o espaço em sua expressão poética. Para ele, o amor carnal “fraquezas são do corpo que é da terra, / mas não do pensamento, que é divino, enquanto o amor platônico é efeito da alma; [...] está no pensamento como idéia”. 
No soneto que se segue, as duas concepções de amor são postas em evidência pelo poeta. A análise que ele faz do sentimento amoroso mostra este ora como puro sentimento e aspiração espiritual, conforme o modelo petrarquiano, ora como rebaixamento desse sentimento, que se revela maculado na medida em que se transmuda em desejo de fruição sensual: 

Pede-me o desejo, Dama, que vos veja, 
não entende o que pede, está enganado. 
É este amor tão fino e tão delgado 
que, quem o tem, não sabe o que deseja. 
Não há cousa, a qual natural seja, 
que não queira perpétuo seu estado; 
não quer logo o desejo desejado, 
por que não falte nunca onde sobeja. 
Mas este puro afecto em mim se dana 
que, como a grave pedra tem por arte 
o centro desejar da Natureza. 
Assim o pensamento (pola parte 
vai tomar de mim terreste humana) 
foi, Senhora, pedir esta baixeza. 

A leitura do soneto confirma, portanto, a coexistência de duas formas de vivenciar o amor pelo poeta que são absolutamente opostas e inconciliáveis: uma que radica numa forma idealizada de amor platônico, outro derivado da própria experiência: ambos tão divergentes, tão opostos como o são a alma e o corpo, as exigências da carne e as solicitações do espírito. 
Nos quartetos, o poeta analisa seus impulsos eróticos, na tentativa de convencer-se de que “o desejo [...] não entende o que pede, está enganado [...] não sabe o que deseja”. Contudo, logo no primeiro terceto, irrompe um verso portador de um outro discurso, que parece postergar ou mesmo contradizer a reflexão anterior do poeta: “Mas este puro afecto em mim se dana”, ou seja, em mim não encontra sustentação, avilta-se, aniquila-se no impulso erótico que move a emoção do eu lírico. 
Vale salientar que essa contradição do sentimento amoroso vivenciado pelo poeta, esse conflito interior entre o anseio de um sentimento amoroso puro, espiritual e o desejo de satisfazer o apelo dos sentidos, essa dupla e antinômica postura que ele assume perante o amor, tudo isso é muito peculiar à lírica camoniana e muito típico do Maneirismo. 
A poesia de Camões desdobra-se forçosamente em cumplicidade com os dois aspectos que pode assumir o sentimento amoroso, razão pela qual ele é considerado o poeta que mais sentida e belamente exprimiu todas as nuanças do amor espiritualmente idealizado bem como o que mais soube expressar a beleza, o deleite, a sensualidade e a emoção do amor carnal. 
O que fica evidente nessa atitude de Camões é a sua independência e lucidez perante as tendências comuns adotadas pelos poetas do seu tempo, a imposição do seu individualismo e da liberdade com que punha em prática a criação poética, também notórias em Os Lusíadas, texto no qual a audácia transgressiva do poeta ousa romper com o “dogma” da imitação servil ao figurino virgiliano da epopéia. *

Autora: Zenóbia Collares Moreira. O lirismo maneirista de Camões/2007.


                                  

15 de abril de 2016

Eros liberto, poesia de Ana Harterley

Ana Hatherly, pseudônimo literário usado pela poetisa Ana Maria Rocha Pereira, nasceu no Porto em 1929. Em 1958 estreou na cena literária com a obra Caminhos da moderna poesia portuguesa. Neste, como nos demais livros escritos entre 1958 e 1962, a poetisa ainda não atingira o nível de excelência que revelaria nos poemas de Sigma, livro publicado em 1965, sob o influxo de movimentos de vanguarda, dos quais participou ativamente, principalmente no Grupo Poesia Experimental Portuguesa. 
Com este livro a poetisa inaugura uma nova fase de sua produção poética, até então ainda presa às formas mais tradicionalistas, mais comedidas em relação às novidades vanguardistas, que já haviam conquistado direito à cidadania nas letras lusitanas, desde o Movimento Orpheu.
 Nos livros que se seguiram à publicação de Sigma, Ana Hatherly deu continuidade às incursões poéticas nos domínios do experimentalismo, fazendo uso de uma linguagem mais instigante, por vezes sutilmente irônica que, em alguns casos, parece incorporar ecos da poesia de Álvaro de Campos, aliados a determinados artifícios do imaginário surrealista, aos quais imprimiu sua marca pessoal, conseguindo atingir resultados bastante expressivos. 
Ana Hatherly publicou uma grande quantidade de livros de poesias, novelas, crítica literária e ensaios.
Os dois textos que se seguem foram coligidos na obra de estreia da autora – Um ritmo perdido, no qual se revela inclinada a um tipo de discurso de tendência filosófica e moralizadora que, conforme foi dito antes, é muito distanciada da poesia que surge a partir de 1965, com Signo, o seu livro mais bem conseguido:

MAS QUE BRANCURA...


Mas que brancura impressionante
De estátua idealizada...
Acaso o tempo nos branqueia
Os ossos e o sentir?
Sai daí,
Humanidade perturbante do meu sonho!
Queres ser alma e corpo
De matéria que nem sequer existe?



AQUELE QUE PROCUROU
Aquele que procurou
E não encontrou,
É o homem desiludido.
Aquele que não procura
E tudo encontra
E nada pode fazer do que achou,
É mais que infeliz:
Sabe a verdade.

Com o livro Eros frenético, publicado em 1968, Ana Hatherly assume o exercício da poesia erótica, também praticadas por muitas outras personalidades femininas da poesia contemporânea. Comparando-se os dois poemas anteriores com os que serão dados a seguir, observa-se, logo à primeira leitura, a grande diferença entre as duas fases da poesia da escritora, antes referidas. A poesia que aparece a partir de 1965 perde o tom conceituoso e moralizador, cedendo lugar a uma expressão poética revitalizada por uma força dramática e lírica, por um ímpeto de paixão que perpassam os versos, na ânsia de exprimir a linguagem do corpo, a ardência do desejo, seus segredos, sua busca de consumação e êxtase:


VOLÚPSIA
O corpo fala
na muda voz da ideia cruamente pura
seus poderes são pensamento-ato.
Oh sombra impaciente
ardes sem limite
O desejo tem espaços próprios
seus segredos
seus exaltados erros
Oh impudico
Teu furor é inquieto
e imenso.

Emaranhados neste anseio-sonho
nesta precisa-aposta
Tu – Eu
Neste ardente ardor
só tu és pausa
fuga
além-palavra
O nosso corpo freme
na adoração do grande olvido

Vagas sucessivas submergem
este ser-não ser
este querer-já-não querer
esta renovada festa-febre
Oh exultante
exaltante festa do tumulto
Sorri
Sorri-me

Eis o momento:
todas as penas imagináveis
te dissolvem nesta adoração
cruel
sem busca
abolida
Amor é fogo que arde e se vê
em ti
em mim
em tudo o que consome
Cegos
surdos
apenas te sabemos
apenas te queremos
fatal fome

30 de dezembro de 2015

O lirismo sensual de Florbela Espanca

Nascida em Vila Viçosa (Alentejo) em 1895, portanto nos umbrais do século XX, Florbela de Alma da Conceição Espanca teria sua atormentada vida encurtada pelo suicídio no ano de 1930, quando contava com apenas 35 anos de idade. Apesar do seu talento invulgar e da qualidade do que escreveu, a poetisa inclui-se no numeroso contingente de escritoras que, em vida, não tiveram o valor de sua obra reconhecido pela crítica e pelo público.
Apesar de ter começado a escrever quando o Simbolismo diluía-se enquanto estilo de época em Portugal, a poetisa revela em parte de sua obra poética, mais precisamente nos seus dois primeiros livros – Juvenília e Livro de Mágoas – afinidades com a temática dor e da solidão que atravessam a poesia do poeta simbolista António Nobre, a quem devotava grande admiração (Ó Anto! Eu adoro os teus estranhos versos).
Comentando a afinidade de Florbela com o poeta “mais triste de Portugal”, Nelly Novaes Coelho chama atenção para a cumplicidade da poetisa com o narcisismo magoado de António Nobre e com o decadentismo crepuscular em cujas pegadas “a criação poética florbeliana vai transformando a mágoa, a dor, o sofrimento de viver, numa verdadeira liturgia da paixão, na qual o eu é o centro, que se quer ponto de convergência do mundo, mas continuamente frustrado, em seu desejo ou necessidade [...]. A poesia de Florbela expressa, em essência, a paixão que ela nutria por si mesma e a dor de não ser reconhecida em sua grandeza [...]. Sua poesia é daquelas em que a psique do poeta é a própria matéria poética”.
A exemplo do que fez Camões no soneto de abertura de suas Rimas, a poetisa dedica àqueles que, iguais a ela, também sofrem, também são torturados pela dor de viver e de amar, pois são os únicos que saberão compreender e sentir, com propriedade, a dimensão da tristeza dos seus versos: ecos da dor permanente que a persegue, da mesma medida em que, em vão, busca superá-la:
Este livro é de mágoas.
Desgraçados
Que no mundo passais,
Chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode talvez senti-lo e... compreendê-lo


No Livro de Sóror Saudade, publicado em 1923, define-se o tom pessoal que haveria de peculiarizar a sua obra, privilegiando o soneto a forma de expressão mais adequada para dar expansão ao tumulto interior, aos conflitos íntimos que lhe dilaceravam a alma. Emocionalmente insatisfeita, padece e tortura-se por não conseguir se fazer compreender pela sociedade castradora do seu tempo, incapaz de alcançar a dimensão do amargo embate que trava entre o que seus sentidos e apetências exigem e o que a própria razão condena.
Com efeito, as mulheres e homens do seu tempo não estavam preparados para a recepção das suas poesias erótico-amorosas, ocupados que viviam a fingir que não sentiam determinados apetites carnais que a poetisa teve a audácia de exteriorizar, com desinibida franqueza. A hipocrisia ditada pelo pseudo-puritanismo burguês, suscetibilizada com a desusada liberdade de expressão de Florbela, não poderia ser tolerante com a exposição de vivências íntimas feitas pela poetisa.
Florbela Espanca merece destaque especial, não só pelo incontestável valor estético de sua obra, como pela ousadia com que desbravou os caminhos na selva bruta dos tabus culturais e religiosos de sua época, para a expressão do amor em sua totalidade. A duras penas, conquistou a liberfdade de dar voz aos sentidos, às pulsões do desejo, à sensualidade e à intensidade erótica que subjazem e são adstritas à experiência física do amor carnal, da vivência da paixão.
Ela libertou o discurso erótico da mulher, mas não libertou o seu corpo, ela expressou mais a tortura do corpo inflamado pelo desejo, a ânsia de completude e de consumação do amor sensual, do amor paixão (Amo-te tanto! E nunca te beijei!...); deseja ser amada e sente-se ignorada (estou junto de ti e não me vês...), lamenta a busca vã de um predestinado “alguém” que curasse as feridas de sua essencial incompletude (alguém que veio ao mundo p´ra me ver / E que nunca na vida me encontrou), esse alguém nunca encontrado que avulta em sua magoada desesperança, como ausência doridamente confundida com a pessoa errada (Agora que te falo, que te vejo / Não sei se te encontrei... se te perdi...) é causa da frustração e tristeza que faz vibrar a lira chorosa de Florbela, dá origem aos tristes cantos nascidos da dramática consciência do desencontro irremediável, da permanência da solidão, da certeza de amar um ser sem rosto, gerado por seu desesperado anseio de ser amada (Aonde estão as linhas do teu rosto? )
No poema inicial de Charneca em flor, dado a seguir, a ânsia de libertação e a busca de autoconhecimento são plenamente manifestadas. Nele a autora expressa, com extrema delicadeza, o ritual do amor carnal, desde a serena perturbação inicial do jogo amoroso, até a culminância da pulsão do desejo, levando ao êxtase, ao clímax, à plenitude do prazer.

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago

Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E nesta febre ansiosa que me invade

Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, sóror Saudade...

Olhos a arder em êxtase de amor,

Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!


No soneto abaixo, a poetisa oferece mais um texto que tematiza a experiência prazerosa da liberação do corpo feminino, acompanhada de todo o ritual do transbordamento sensual e do prazer vivido e fruído em sua plenitude, através do processo da sensibilização erótica do corpo, em que todos os sentidos se conjugam de forma totalizadora. Mas é tudo devaneio do desejo, pois os tercetos revelam a solidão, a frustração do amor não correspondido, a tristeza e... nada mais:

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,

Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma

Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração, que tu não sentes,

Vai bolando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...


No soneto Volúpia, do livro Charneca em Flor, é o prazer provocado pelo toque das mãos, pelo tato que arrepia o corpo com frêmitos vibrantes.

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase, pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...

A nuvem que arrastou o vento norte...
Meu corpo! Trago nele um vinho forte...
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...

São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos

Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...


A poesia de Florbela soma-se à de Judite Teixeira, sua contemporânea, como pontos de partida para “a erupção da linguagem enterrada da paixão”, significando a abertura dos caminhos, a fertilização do terreno onde se fincariam as raízes da poesia erótica feminina na literatura portuguesa.

Autora: Zenóbia Collares Moreira .(Itinerário da poesia feminina portuguesa: Século XX... )




19 de dezembro de 2015

As duas vertentes da lírica de Camões

   
Sem ser discrepante ou contraditório, Camões organiza a sua lírica através de duas vertentes, ou seja, uma que se volta para a expressão do amor sensual, com todos os males que lhe são inerentes, fruto da experiência do poeta, e de outra que se orienta para a expressão do amor idealizado, haurido na lição neoplatônica. Essa contraditória situação não parece ter passado despercebida ao poeta, que, em uma das suas canções, alude às duas tendências amorosas que  rivalizam e disputam o espaço em sua expressão poética. Para ele, o amor carnal “fraquezas são do corpo que é da terra, / mas não do pensamento, que é divino, enquanto o amor platônico é efeito da alma; [...] está no pensamento como idéia”.
No soneto que se segue, as duas concepções de amor são postas em evidência pelo poeta. A análise que ele faz do sentimento amoroso mostra este ora como puro sentimento e aspiração espiritual, conforme o modelo petrarquiano, ora como rebaixamento desse sentimento, que se revela maculado na medida em que se transmuda em desejo de fruição sensual:

Pede-me o desejo, Dama, que vos veja,
não entende o que pede, está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado
que, quem o tem, não sabe o que deseja.

Não há cousa, a qual natural seja,
que não queira perpétuo seu estado;
não quer logo o desejo desejado,
por que não falte nunca onde sobeja.

Mas este puro afecto em mim se dana
que, como a grave pedra tem por arte
o centro desejar da Natureza.

Assim o pensamento (pola parte
vai tomar de mim terreste humana)
foi, Senhora, pedir esta baixeza.

A leitura do soneto confirma, portanto, a coexistência de duas formas de vivenciar o amor pelo poeta que são absolutamente opostas e inconciliáveis: uma que radica numa forma idealizada de amor platônico, outro derivado da própria experiência: ambos tão divergentes, tão opostos como o são a alma e o corpo, as exigências da carne e as solicitações do espírito. Nos quartetos, o poeta analisa seus impulsos eróticos, na tentativa de convencer-se de que “o desejo [...] não entende o que pede, está enganado [...] não sabe o que deseja”. Contudo, logo no primeiro terceto, irrompe um verso portador de um outro discurso, que parece postergar ou mesmo contradizer a reflexão anterior do poeta: “Mas este puro afecto em mim se dana”, ou seja, em mim não encontra sustentação, se avilta, se aniquila.
Vale salientar que essa contradição do sentimento amoroso vivenciado pelo poeta, esse conflito interior entre o anseio de um sentimento amoroso puro, espiritual e o desejo de satisfazer o apelo dos sentidos, essa dupla e antinômica postura que ele assume perante o amor, tudo isso é muito peculiar à lírica camoniana e muito típico do Maneirismo.

7 de novembro de 2015

Castro Alves. O Laço de Fita

A arte engajada com a causa abolicionista de Castro Alves deu origem a alcunha que lhe foi atribuída de “poeta dos escravos”. Mas, apesar do vigor, do entusiasmo, da paixão e da veemência com que notabilizou o seu discurso poético de índole social, é preciso que seja, também, valorizada a sua peculiaríssima poesia lírico-amorosa, especialmente por sua qualidade de estilo e pela expressão límpida de uma sensualidade sem malícia que, ainda hoje, seduzem os leitores dos seus versos. O poeta baiano faleceu, solteiro, aos 24 anos de idade, deixando apenas um livro publicado - Espumas Flutuantes. 

O LAÇO DE FITA

Não sabes, criança? ’Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh’alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.
                                        
COMENTÁRIO

“Teu laço de fita faz parte de “Espumas flutuantes”, único livro de Castro Alves publicado em vida. Nesse poema temos um sujeito lírico falando sobre a sua paixão por uma moça que, supostamente, está em um baile e usa como adereço nos cabelos um laço de fita. Esta figura feminina é uma mulher sedutora, esbanja sensualidade e atrai o poeta com seu insinuante laço de fita.
O amor de cunho platonizante, puro sentimento tal como era idealizado pela primeira geração de poetas românticos, não tem lugar no lirismo de Castro Alves. O amor, em sua lírica, é retratado sob a lupa da paixão, da sensualidade e do desejo amoroso. A mulher amada é envolvente, real, lasciva, ousada, e a paixão é a válvula propulsora que move o poeta a escrever versos de exaltação à relação amorosa que o envolve. Em suas poesias, a sensualidade e o erotismo explícitos são aliados a uma concepção poética do amor como sentimento vivido em sua plenitude seja no ponto de vista emocional, seja no que diz respeito à fruição do amor carnal. As mulheres que ama são sensuais e desenvoltas, ao contrário da musa das gerações anteriores, recatadas, intocáveis e vistas sob a ótica da idealização.
A “formosa pepita” do poema difere, portanto, da representação geral que os românticos pintavam da mulher: sempre pudica, inatingível, intocável, a virgem sonhadora. Ao contrário, aqui, há uma mulher que tanto atiça como sente desejo: “Por que é que tremeste? Não eram meus lábios.../Beijava-te apenas.../ Teu laço de fita.”.
Vale observar que o eu-lírico irrompe no poema usando uma linguagem que, embora aparente certa pureza, na verdade veicula um forte conteúdo sensual, projetado em um laço de fita. Tal adorno feminino, no entanto, condensa um fetiche, um desejo. O eu-lírico revela satisfação por estar sendo seduzido por uma moça com os cabelos adornados com um laço de fita que atiça a sua libido. 
Um rastro de sensualidade permeia todo o poema. Na sexta estrofe, instaura-se um certo clima de romance, de mútua atração: a jovem não consegue esconder que também sente desejo: "Por que é que tremeste? Não eram meus lábios... /Beijava-te apenas... /Teu laço de fita." Tal atitude por parte da moça não é comum na época, da mesma forma que a intimidade e ousadia do homem. O tratamento dado à mulher pelos demais românticos era bem mais distante e moderado.. 
Nas duas últimas estrofes, o eu-lírico reitera a sua situação de cativo do "laço de fita”: "Talvez da cadeia libertes as tranças/Mas eu... fico preso/No laço de fita.". Logo a seguir, fala sobre o lugar no qual irá encontrar- se com a amada, após o fim da festa: "Mas ai! Findo o baile, despindo os adornos/N'alcova onde a vela ciosa ... crepita". Fica, portando, a sugestão de que a ambos terão uma noite de amor. A sedução que exerce sobre o eu-lírico o laço de fita é reiterada nos versos finais do poema: "Pois bem! Quando um dia na sombra do vale/Abrirem-me a cova... formosa Pepita! /Ao menos arranca meus louros da fronte, /E dá-me por c'roa... /Teu laço de fita.". 
Como ficou claro nesse poema, as relações amorosas são apresentadas de uma maneira sensual e apaixonada, da qual resulta uma poesia que prima pela originalidade por poetizar o erotismo sem eufemismos, livre da sombra do pecado e do peso culpa. Nenhum outro poeta romântico conseguiu cantar os deleites das uniões carnais, da paixão, como Castro Alves, ninguém, como ele, ousou falar dos desejos, da volúpia e das delícias do amor entre homens e mulheres, com tanto realismo e verdade. 
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Zenóbia Collares Moreira Cunha