15 de outubro de 2010

O lirismo pré-romântico da Marquesa de Alorna.


D. Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre – conhecida na História da Literatura Portuguesa pelo pseudônimo arcádico de Alcipe - nasceu em Lisboa no ano de 1750. Aos oito anos de idade foi mandada para o convento de Chelas, acompanhando sua mãe, mandada para a clausura pelo Marquês de Pombal, ao mesmo tempo em que seu pai- o Marquês de Alorna - era encarcerado no forte da Junqueira por suspeitas de estar envolvido na conspiração contra o rei D. José I. Libertada aos 26 anos, logo conheceu um militar alemão, o Conde de Oeynhausen, que, tomado de paixão pela bela Alcipe, não hesitou em tornar-se católico para desposá-la. A Marquesa faleceu em 1839, aos 89 anos de idade. deixando uma vasta obra literária manuscrita, publicada postumamente por uma das suas netas.
Sua poesia, como a muitos poetas seus contemporâneos, segue as duas tendências literárias coexistentes na segunda metade do século XVIII e primeiras décadas do século XIX: o Arcadismo e o Pré-Romantismo.
O soneto que vem a seguir tematiza a melancolia, tão cara aos pré-românticos, com a mesma suavidade que perpassa o lirismo da poetisa. Talvez por influência da formação clássica que recebeu, Alcipe não dá rédeas soltas ao sentimentalismo. Este passa sempre pelo crivo da razão, torna-se suave, delicado, lembrando freqüentemente a retórica camoniana.

Tu, Deusa tutelar da solidão,
Amável sombra, ó melancolia,
Aproxima-te, rouba-me a alegria
Que turba a suavidade ao coração.
Não prives o meu peito, Ninfa, não.
Da tua triste e doce companhia,
Que suspira por ti um e outro dia
Quem de amar-te só faz consolação.
E não pode a que vive suspirante
Viver entre o tumulto muito espaço,
Sem que faça o seu mal mais penetrante.
Atende, ó Ninfa, o rogo que te faço:
Não demores mais tempo o doce instante,
Os dias tristes, que eu tão triste passo.

De modo geral o lirismo pré-romântico da Marquesa de Alorna nunca é densamente ensombrado pela Musa Negra dos desesperados. O soneto abaixo faz incursões no panorama sombrio do locus horrendus, mas sem o caráter hiperbólico dos elmanistas. Seu estro é suave, a expressão da dor é contida, sem grandes apelos ao sentimentalismo:

Escassamente o sol já se mostrava
Entre a sombra que as luzes lhe encobria
Dos pássaros o canto que se ouvia
A ternura e saudades inspirava.
Já o mocho nocturno se escutava,
Que o retorno das trevas prevenia;
O terror que no peito meu descia,
Triste pranto dos olhos me arrancava.
Larguei a voz então aos surdos ventos,
Que nas cavernas ásperas, com brados,
Convocavam os sustos macilentos;
Aos soltos ais, nos montes espalhados,
Não respondem os seres sonolentos,
Que não há quem responda aos desgraçados.

No soneto abaixo, Alcipe intertextualiza o soneto II, de Camões, Eu cantarei de Amor tão docemente, por sua vez intertextualizado de um soneto de Petrarca:

Eu cantarei um dia da tristeza
Por uns termos tão terrenos e saudoso,
Que deixem aos alegres invejosos
De chorarem o mal que lhe não pesa.
Abrandarei das penhas a dureza,
Exalando suspiros tão queixosos,
Que jamais os rochedos cavernosos
Os repitam da mesma natureza.
Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
Ave, fonte, montanha, flor, corrente,
Comigo hão-de chorar de amor enredos.
Mas ah ! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
Que eu derramo os meus ais inutilmente.

Um dos poemas mais bem conseguido da Marquesa é a cantata que compôs para o falecido marido. A doçura das palavras, a serenidade da dor, o sentimento da perda e da saudade pungentes derramam-se pelas páginas em braço como uma suave cascata de lágrimas. É tocante a expressão do amor, da aflição e da dor intensificados pelo refrão Que pavor / Espalha em todo o campo a minha dor!... que semelha o tanger cadenciado do sino fúnebre, soa como um réquiem solene, que irrompe da alma da poetisa:

Oferenda aos mortos
[cantata]
Aquele outeiro sombrio
Está de névoas coberto;
Escorre entre canas, perto
Fraco e murmurando, um rio.
Naquele negro pinhal,
Como tocha funeral,
Brilha modesta candeia,
Que ao pastor pobre alumeia,
Com a luz embaciada;
Vem por corvos arrastada
A tarde; A luz apenas das estrelas arde!...
Que pavor
Espalha em todo o campo a minha dor!...
Das frestas dos edifícios
Vergonhoso mocho voa,
Ecoam seus uivos atroa
Os Génios dos malefícios;
Saem Fadas peregrinas
A dançar sobre as ruínas,
E vêm por entre perigos
Gnomos, trasgos, inimigos.
Alumeia O pirilampo incerto esta coreia.
Que pavor
Espalha em todo o campo a minha dor!...
Estão todas apagadas
As luzes da Outra-Banda;
Pelas praças ninguém anda,
Vagam as sombras caladas,
Naquele triste convento
Dobra o sino sonolento;
O ar c’os sons esmorece,
O horizonte empalidece;
O vapor outumnal
Cobre-o de um véu fatal,
Sombrio.
Suspira o vento e nasce o calafrio.
Que pavor
Espalha em todo o campo a minha dor!...
Vêm aflitos pensamentos,
Vêm desde Sintra queixosos,
Vagar ternos e medrosos
Ao redor de monumentos...
A campa de Isa alvejando,
A escuridão vai cortando...
Dorme a quieta africana...
Dormirá a raça humana...
Não rompe o mundo
Letargo tal, um sono tão profundo.
Da manhã,
Para os mortos, a graça, a luz é vã.
Que pavor
Espalha em todo o campo a minha dor!...
Com teu clarão moderado,
Que objecto me estás mostrando?
Que me estás afigurando,
Crepúsculo descorado?...
Sombra majestosa e cara,
Que nas mãos da Parca avara
Enches todo o meu sentido!
És tu, Armínio querido?
Se te retrata a saudade,
Apaga as cores a realidade,
Entretanto,
O teu túmulo lava este meu pranto.
Que pavor
Espalha em todo o campo a minha dor!...
Sobre o teu marmóreo altar,
Onde oculto me magoas,
De plátano cinco c’roas
Venho hoje depositar.
Recebe, Armínio, a mais pura;
Duas leve-as a ternura,
De meu pranto comovida,
A Marcia, a Lilia querida:
Os dois penhores
Dos nossos tristes, doces amores,
Condoída,
Of’reço duas, of’recera a vida.
Que pavor
Espalha em todo o campo a minha dor!...

Apesar das dificuldades econômicas que a viuvez lhe acarretou, a Marquesa de Alorna transformou a sua residência num foco de ebulição cultural, onde se debatiam as novas tendências estéticas e literárias. Poetas como Bocage e Herculano, em diferentes momentos, freqüentaram os salões da poetisa, bem como o jovem Garrett.

Zenóbia Collares Moreira. Poetas do pré-romantismo português. 2001.


30 de setembro de 2010

A celebração do cotidiano na poesia de Rosa Alice Branco


Alice Branco, poetisa, filósofa, ensaísta, tradutora, é também co-fundadora da revista Limiar. nasceu na cidade de Aveiro, em 1950. Realizou Mestrado em Filosofia do Conhecimento, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Realizou Doutorado na área de Percepção visual e Psicologia do ambiente. A autora tem várias obras publicadas entre poesias e ensaios. O lastro filosófico, no qual se assenta a produção poética de Rosa Alice Branco, radica nos seus estudos filosóficos, aprofundados dos quais resultaram trabalhos acadêmicos sobre a teoria da percepção do filósofo inglês do século XVIII, George Berkerley.
Na poesia de Rosa Alice Branco, a “celebração do quotidiano” ocupa um lugar privilegiado. Todavia, a autora segue por trilhas bem diferentes das trilhadas por Adília Lopes, no que diz respeito à tematização das coisas do quotidiano ou, como ela prefere chamar, a “celebração do quotidiano”. Em seu discurso, os aspectos mais simples do quotidiano são revestidos de erotismo que finca as suas raízes na percepção do universo pelos sentidos. 
Nos poemas de Rosa Alice, a idéia recorrente que os percorre é: “vemos o que vemos, porque no olhar materializamos a realidade. Mesmo quando não vemos, é a percepção dessa negatividade que nos ilumina o ser”. Daí dizer no verso que abre o poema Passos sem memória, que será dado a seguir “Olho pela janela e não vejo o mar”. Neste poema, verso a verso construído com base na poética do quotidiano e no primado do substantivo: a manhã, a relva, o lume, o pão, o jornal, a saliva, o papel, as gaivotas. 

Olho pela janela e não vejo o mar. As gaivotas 
Andam por aí e a relva vai secando no varal. 
Manhã cedo, 
O mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume 
e o jornal. A saliva com que hei-de dizer bom dia. 
As palavras são as primeiras a chegar. O que 
fica delas 
amacia o papel. Pão quente com o sono de 
ontem 
e a relva vai secando no varal. 
Manhã cedo, 
o mar ainda não veio. 
Veio o pão, veio o lume e o jornal. 
A saliva com que hei-de dizer bom dia. 
As palavras são as primeiras a chegar. 
O que fica delas amacia o papel. 
Pão quente com o sono de ontem 
e os sonhos de hoje. 
Prepara-se o dia, os passos de ir e vir. 
Estou cada vez mais perto. 
Olhas-me como se soubesses 
o que hei-de saber mais logo 
nesta cidade nunca é meio-dia. 
Há sempre uma doçura 
de outras horas. E recordações avulsas. 
Deixa sair de dentro do vestido, 
deixa soltar as ondas do mar. 
A janela está vazia. 
O meu filho caminha na praia 
e tu soletras as gaivotas. 
Caminha à minha frente 
Sem deixar pegadas. Perco-me 
com todas as mãos, todos os amantes. 
Invento passos e palavras 
para adormecer. A esta hora a minha avó 
enrolava o rosário nas mãos. 
Eu estava dentro das contas, 
dentro do sono 
que rondava a prece. Durante muito tempo 
estive fora, 
agora caminhamos juntos. Sem memória.

No poema, que vem a seguir – A tua pele descalça - um sopro de erotismo perpassa os versos. 

Veio uma onda. A varrer o meu sono. 
Caminhava nele como caminho na areia. 
Nada me une ou divide. Nada me retém. 
Sentas-te onde me sento no teu colo 
e peço sempre a mesma história. 
A tua voz cria as memórias que hei-de ter. 
Por agora caminho ao longo das gaivotas 
e grito como elas quando a maré baixa. 
Às vezes apoio-me num rochedo 
para dizer “casa” e logo desmorono. 
Sigo descalça como tu para dizer “seguimos”. 
Mas são apenas sons sob o sol de maio. 
Murmúrios do que não serei. 
Sempre tive problemas com o verbo ser. 
Faço e desfaço as malas, entro 
e saio das gavetas. 
Pausa na camisa que vestiste da última vez. 
Uma vontade de a amarrotar, 
desapertar os botões e sentir lá dentro 
a tua pele cá fora. 
Tudo isto é tão verdade como podem ser 
os botões de uma camisa escrita. Confesso 
que não pensei na cor, 
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser 
a de quadrados. 
Em qualquer delas a tua pele entra na minha. 

A leitura dos poemas de Rosa Alice Branco aponta também, como um forte traço definidor de sua arte poética, como uma meta-poesia, ou seja, uma poesia que se volta para ela mesma, para se pensar e se interrogar, sem perder de vista o ininterrupto diálogo dos seus textos com a filosofia.
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Zenóbia Collares Moreira Cunha, O Itinerário da poesia feminina portuguesa: Seculo XX.

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[1] Floriano Martins, “Rosa Alice Branco: esboços e sombras (entrevista)” in: Revista da Cultura, nº 35 –Fortaleza, S. Paulo – agosto de 2003. 
[2] Id. Ibidem.



22 de setembro de 2010

A poesia de Rita Olivais


Poetisa nascida em Lisboa, no ano de 1938, Rita Olivais fez a sua estréia literária em 1987, com o livro de poesias Pausas num Silêncio. 

As poesias reunidas nesse livro trazem uma espécie de “novo romantismo” entremeado se uma discreta sensualidade, já presente na obra de poetas que estrearam na década de 70, mas que encontrara espaço para a sua permanência na poesia das décadas que se seguiram, disputando, com a poesia do realismo quotidiano, a preferência das poetisas com o realismo quotidiano:

                              VITRAIS

Dizes que os meus olhos ficam verdes
dor da erva doce onde me deitas;

Dizes que os meus olhos ficam loiros
cor do areal onde me deitas;

Dizes que os meus olhos ficam negros
Quando em noites brancas não me entrego;

Dizes que os meus olhos são azuis
quando já não espero e me possuis.

Então
eu sou a cobra que assobia
se enrola, cola e te asfixia;

Então
eu sou a leoa que magoa
te morde, ataca e não avisa.

Depois
tu és o cisne que desliza
vencido,
no meu corpo amanhecido.


SEXTETO

És a flauta que estonteia
o trompete  irreverente que destoa
o violoncelo displicente que vagueia
pela noite de um nocturno que magoa

guitarra tão doída que soluça
violino tão doce que arrepia
e sax tão sexy que me aguça
o despudor de fugir da harmonia.


ROMÃ
Abri uma romã
Entre o horror e o fascínio
de um útero de súbito a descoberto,
sacudiu-me um vómito de prazer
e atirei-me a ela.

Desfi-la. Desfiz-e.

Depois
Tudo voltou harmoniosamente
Ao seu lugar
Num esplendor incrível de nudez.

A expressão do erotismo e da sensualidade ainda faz parte dos interesses de muitas poetisas, mas já não tem o vigor que a caracterizava  na década de 70.

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Zenóbia Collares Moreira Cunha