13 de novembro de 2010

A Poética de Almeida Garrett


O erotismo e o sofrimento que, simultaneamente, transitam pelos versos de João da Silva Leitão de Almeida Garrett são as vigas mestras que sustentam a sua expressão romântica. Assim, em cada poema de As Folhas Caídas é configurada a duplicidade do EU romântico, plenamente consciente dos seus erros, aos quais se sente preso e sem condições de escapar aos seus grilhões.
Erotismo e sentimento avultam como elementos indissociáveis do fazer poético de Garrett e, consequentemente, constituem o cerne do dramatismo que se observa em sua obra, decorrente de sua impossibilidade de escolha, considerando que qualquer escolha implica em rejeitar a outra, e o eu-lírico não tem condições de assumir posições radicais que eliminaria a recorrente presença de um “TU” feminino, cheio de mistério, fonte do conflito e dos lamentos do poeta. Daí a presença dominante nos poemas de As Folhas Caídas de uma permanente tensão entre dois termos antitéticos – LUZ e TREVAS- que dinamizam seu discurso e exprimem a constituição dialética do universo mental de Almeida Garrett.
Em sua poética, LUZ e TREVAS impõem-se como elementos indissolúveis, que se completam em uma estranha relação na qual um representa a negação do outro. Como escreve António Saraiva, hoje é possível enxergar as “limitações na poesia romântica. Toda ela é uma poesia de alcova: nunca o homem e a mulher caminham de mãos dadas. É, por outro lado, uma poesia de frustração, pois todo o amor acaba na tragédia da separação ou da saturação; a amargura sucede ao prazer”. É ainda uma poesia que se apóia em contrastes, em oposições. Nestes termos, o perfil da mulher é configurado em dois extremos: ela é anjo ou demônio, é a salvação ou a perdição do homem, refletindo a realidade social de uma época em que o dinheiro era a mola propulsora de todos os interesses e a situação da mulher era, ainda, de subalternização e de dependência ao homem. Nesse universo regido pelo poder masculino, a condição existencial da mulher não oferecia muitas variantes, oscilando entre a veneração do homem, o casamento, a vida acomodada de esposa, de mãe e a degradação derivada da prostituição a que muitas recorriam para sobreviverem.
Vale sublinhar que a publicação de As Folhas Caídas causou escândalo. A puritana sociedade oitocentista não estava preparada para receber com naturalidade a confissão aberta dos sentimentos e dos desejos masculinos que, pela primeira vez irrompia e implodia os códigos convencionais da tradição clássica que impunham à contensão do discurso poético e a expressão do amor sensual. Antes de Almeida Garrett, poetas do Pré-Romantismo, como José Anastácio da Cunha, Américo Elísio, Francisca de Paola Possolo da Costa, a Viscondessa de Balsemão e Bocage, ousaram escrever poemas impregnados de uma audaciosa sensualidade, de erotismo explícito. Todavia, com exceção de Bocage, os demais nunca as publicaram em vida.
As suas obras foram publicadas, postumamente, por poetas que descobriram seus manuscritos, sentiram o valor da obra inédita e encarregaram-se de publicá-las. A obra do poeta José Anastácio da Cunha, por exemplo, foi publicada por Garrett, em 1939, quarenta e dois anos após a sua morte (1887). É possível que José Anastácio tenha exercido influência sobre Garrett no sentido do encorajamento para a exteriorização das suas emoções e sentimentos mais profundos, dando rédeas soltas ao seu latente erotismo.
Com efeito, o que mais transparece nos poemas garrettianos de As Folhas Caídas é o indiscutível abandono de tudo quanto é convencional (não sincero) nos poetas árcades e a adesão a tudo quanto é anti-convencional (sincero e espontâneo) nos poetas pré-românticos. Daí o poeta assumir inteiramente atitudes confessionais, de conotações eróticas e sentimentais, de forma direta e sem disfarces, tal como faziam os pré-românticos antes citados. Todavia, ainda há muita contensão e racionalização do sentimento amoroso em sua poesia. De fato, Garrett não ousou exprimir a emoção da paixão e a força impulsionadora da sensualidade, como fizera José Anastácio da Cunha.
O jogo poético em As Folhas Caídas reside na antinomia, continuamente estabelecida, entre AMOR SENSUAL e AMOR PLATÔNICO, bem como na reiterada oscilação do Eu-Lírico entre um e o outro, entre a pulsão pelo amor sensual, que o prende irrecorrivelmente ao presente, e o amor espiritual, platônico e puro que o fascinou no passado, restando-lhe apenas a saudade dele, no presente.
Evidencia muito bem a diferença entre o QUERER (sensual) e o AMAR (espiritual) o poema Não te amo, no qual é posto em prática o jogo antitético entre as exigências do corpo e as solicitações do espírito. Em verdade, o ideal de amor platônico que, poeticamente, Garrett acalentou vivenciar ficou como uma quimera, um desejo adiado para sempre, um sonho impossível de realizar na vida real.

Não te amo

Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo.
És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.



27 de outubro de 2010

Um poema de Ramos Rosas


Caminha para a minha fronte

Poderemos acaso erguer uma torre de sossego

como se estivéssemos no interior do mundo?

Nós somos descendentes dos répteis
e por isso amamos o letargo solar entre sombras vegetais
Poderíamos assim ouvir o rumor da ausência
como um rosto entre longínquas nascentes
e a pulsação das pedras o obscuro júbilo do fogo
o sorriso cintilante de um regato
Estaríamos na intimidade do olvido
como a pura ignorância de uma sombra lúcida
Seríamos uma erva escrita pela saliva da terra
numa adequação vibrante e sóbria
Veríamos ascender o obscuro em lâmpadas nuas
e toda a espessura seria dúctil e porosa
A identidade encontraria a origem numa flora leve
a hospitalidade de uma terra
nas constelações de argila de basalto e esterco

Nem sempre é fácil a compreensão das poesias de Ramos Rosa, logo à primeira leitura, notadamente em razão da ambigüidade resultante do enfoque metafísico e da presença de elementos conflitantes que estabelecem relações de antagonismo no poema.

A composição “Caminha para a minha fronte” principia com uma indagação do poeta para a qual não pretende encontrar respostas, porque sabe que estas não virão, simplesmente por não terem existência. Sua indagação não passa de mero pretexto para suas ponderações acerca do que nos homens é desumano.

A intencionalidade da sua mensagem, no entanto, é expressar a sua preocupação de ordem metafísica. Todavia, a presença de idéias antagônicas joga-nos no campo das suposições, numa procura de do que há de insondável e velado na subjetividade do ser humano. 

Zenóbia Collares Moreira



21 de outubro de 2010

Francisca de Paola Possolo da Costa (Francília)



Francisca de Paola, além de poetisa foi também ficcionista, autora de um romance, Henriqueta de Orleans ou O Heroísmo, cujo sucesso ensejou duas edições seguidas do mesmo. Foi amiga pessoal de Castilho com quem manteve assídua correspondência. Deixou incontáveis sonetos e elegias inspirados em seu ardente amor por Jónio, nos quais dá livre desafogo à sua paixão em versos impregnados de ousada sensualidade. Esses apaixonados poemas cessam após a morte do marido. Da lira enlutada da poetisa, passam a emanar somente versos toldados pelo sofrimento inclemente que lhe dilacera a alma. A melancolia, a angústia da solidão e do bem irremediavelmente perdido às vezes refinam em desespero. Conseqüentemente, a sua poesia torna-se uma viva expressão da dor da ausência e do desejo de libertação na morte. Francília inscreve-se entre os poetas pré-românticos que expressam, em suas poesias, a paixão e o erotismo que envolvem os seus sentimento:


Graças aos Céus, chegou enfim o dia
Este dia feliz, tão suspirado,
Em que a tua presença, Jônio amado,
Virá encher minha alma de alegria! 
A tristeza mortal, que me oprimia,
Em risonho prazer se tem mudado,
Meu coração de suspirar cansado,
Respira livre de melancolia. 
Já a mimosa esperança me figura
O som da tua voz... alguns espaços,
Já cuido ouvir-te as frases de ternura. 
Meu bem...que te suspende? Apressa os passos, 
Oh!... Vem antes que chegue a noite escura,
Vem suspirar de amor, entre os meus braços.

O soneto abaixo é mais um dentre os vários em que a poetisa manifesta o desejo e o ardor por Jônio, pseudônimo do marido a quem dedica a maior parte dos seus poemas, sejam os sonetos escrito quando ele ainda vivia, sejam nos sonetos e poemas compostos após a sua morte:

Que me sucede, oh Céus! Eu reclinada
Nos braços do meu bem! Eu apertando
Ao peito a sua mão, seu rosto olhando,
Em amantes transportes enlevada!
Ventura, posso crer-te? Eu abraçada
De Jônio, por quem vivo suspirando!
Inda estou receosa, duvidando,
Que para sempre a ele estou ligada.
Doce Jônio, meu bem, já a teu lado...
Mas Deuses, aonde estavas... aonde estou eu?
Quem ma aparta de ti, Jônio adorado?
Ah! que só foi um sonho...oh justo Céu!
Ou me dá meu bem, o meu amado,
Ou dure eternamente o sonho meu.
*
Na série de composições escritas na fase do luto pelo marido, Francília transfere para a sua lira a intensidade da dor pela perda do homem amado. O confessionalismo típico da poética pré-romântica intensifica-se, o cenário que serve de pano de fundo para a expressão de sua mágoa e saudade é o locus horrendus, a paisagem sombria e lúgubre, árida e medonha, condizente com a escuridão que a poetisa traz dentro de si. Os três sonetos que se seguem são exemplares dessa vertente da poesia da autora, toda ela impregnada por sombria amargura:
*
Que sítio tão medonho!
Céus que horrores!
Que selva tão extensa, e tão sombria!
Seca e rebelde, a terra aqui não cria.
Mimosa relva, variadas flores!
Aves de agouro, mochos piadores
Aqui vêm ocultar-se à luz do dia.
E do negro cipreste, à sombra fria,
Soltam agudos, fúnebres clamores!
Pavoroso lugar, a Natureza
Para mim te criou expressamente,
Tu só podes fartar minha tristeza.
Aqui verei quebrar-se lentamente
Tênue fio, que a vida me tem presa!
Aqui meus dias findarei contente.

#
Neste bosque medonho, onde somente
Brilha o sol um instante cada dia,
Aqui onde da noite a mais sombria
O silêncio horroroso é permanente.
Aqui de amargo pranto, ocultamente
Inundarei a terra, seca, e fria;
Aqui meus ais, no seio da agonia,
Enviarei aos ares, livremente.
Desgostosa da vida, e fatigada
De suportar os duros, os cruentos,
Fatais pesares, de que estou cercada.
Quero ao Mundo fugir alguns momentos,
Enquanto a morte, em vão por mim chamando,
O termo não vem por a meus tormentos!

O lirismo de Francília é um diálogo permanente com a sua alegria ou com a sua dor. Intimista, confessional e cheia de paixão, sua poesia torna-se um discurso contínuo do eu sobre o outro - no caso Jônio. Daí a dicotomia que a caracteriza, na medida em que seu estro passa da luminosidade dos dias afortunados para a sombra corrosiva da desventura que a acompanhará até que a morte, tão desejada e suplicada, venha silenciá-la. Dentre as poetisas pré-românticas, Francília é a que mais se aproxima da linha poética de Elmano Sadino – Bocage – no que tange a sua evocação recorrente do locus horrendus, pela dramaticidade que imprime à expressão da dor e da saudade que a consomem.


By Zenóbia Collares Moreira