5 de março de 2011

O real cotidiano na poesia de Teresa Rita Lopes.


Só contigo reparto o meu farnel
de quotidianos fardos e alegrias
breves e desta brasa em chaga
Teresa Rita Lopes

Teresa Rita Lopes nasceu e viveu em Faro, no Algarve até vir para Lisboa cursar a Faculdade de Letras. Nos anos 60 foi obrigada a ir para Paris, onde viveu cerca de 20 anos, doutorando-se e lecionando na Sorbonne. Em princípios da década de 80, regressou a Lisboa, onde é professora na Universidade Nova. Como pesquisadora e ensaísta, tem tido particular interesse por Fernando Pessoa e Miguel Torga.
A poetisa e ensaísta Teresa Rita faz coro com outras vozes poéticas femininas que, na década de oitenta, dão continuidade à prática de um tipo de poesia voltada para a reabilitação do real quotidiano, no seu caso através de um discurso conduzido pela emoção, pela afetividade:

Junto a um muro velho
A uma casa ruída
A velha amendoeira diz que não
À morte
E fica
De repente
Menina e noiva
Ao mesmo tempo
O vento ri-se dela
Arranca-lhe as pétalas
-Mas são tantas que não se nota –
Escarnece-a:
“És uma velha louca de véu e grinalda!” –
para enxotar os insultos machistas do velho
vento

Os poemas curtos, a forma minimalista somam-se nos poemas de Teresa Rita Lopes que compõem o seu livro A Fímbria da fala, no qual “uma só palavra constitui um verso”, da mesma forma que o substantivo domina o campo da expressão poética, como exemplifica o poema Dia a dia:

Dia 
a
dia
noite
a
noite
pedra
a
pedra
palha
a
palha
a
tronco
a
tronco
cuspo
a
cuspo
gesto
a
gesto
passo
a
passo
flor
a
flor
se faz um ninho
um caminho


Tristeza porque não
mas não
tristeza vidro sujo a cuspir sua vileza
sobre todas as paisagens
não tristeza dente podre
a proibir qualquer sorriso
não tristeza nódoa de gordura sobre
a seda natural deste mar
deste ar
Tristeza ah porque não
avança sobre
mim mas toca harpa
cobre-me de luto
sem vergar ombros
sê uma auréola
de negra luz sobre a minha cabeça
Quando te tinha
Mãe
Não sabia
Havia
De te perder
Nem pensava
Sequer
Que podia
Não te ter
Não parava
Para te saborear
Para te saber
Tão precisa
À minha vida
Tão preciosa
Não gozava
A alegria
De te saber
Mãe

Agora que morreste Mãe
e só em mim te tenho
sou mais que o meu tamanho
porque sou tu também
Tuas mãos afagam as minhas mãos
de quem são estes gestos esta pele?
Nunca me deste irmãos
só contigo reparto o meu farnel
de quotidianos fardos e alegrias
breves e desta brasa em chaga
Que é a tua ausência nos meus dias
órfãos mas sempre ao colo desta mágoa
de não te ter sido esquiva
de não te ter nunca aberto as portas
do meu ser de nunca te ter dado vivas

A obra das poetisas da década de 80 são de suma importância para a renovação da poesia, não apenas porque leva em seu bojo heranças de décadas anteriores que se foram desdobrando em outras, assumindo roupagens diferentes e ressurgindo através de novas linguagens. No fértil terreno dessas mutações renovadoras fincaram-se as raízes uma nova forma de realismo que recupera a poesia do quotidiano sob uma outra perspectiva que nada deve à poesia do quotidiano consagrada por Cesário Verde, no século XIX. É sobre a realidade do século XX, a partir da visão particularizada de mulheres de uma outra era que esse quotidiano é focalizado.



Zenóbia Collares Moreira. O Intinerário da poesia feminina portuguesa, sd.

12 de fevereiro de 2011

F. Pessoa: A criança que fui chora na estrada


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim. 

Fernando Pessoa

A criança que fui chora na estrada” é mais um poema pessoano que evoca a infância do poeta, na nostálgica provocada pela lembrança da ventura perdida, levando no turbilhão dos anos que passaram o mistério e a doçura daquele mundo infantil perfeito. Tais lembranças despertam no eu-lírico dolorosa angústia derivada da impossibilidade de recuperar esse bem perdido inapelavelmente. 


O poema se organiza a partir da oposição temporal passado/presente. O adulto sente que a a criança que ele foi não sumiu de forma absoluta, ele sabe que ela permanece viva e oculta na pessoa que se tornou no presente, pronta para ser resgatada. Todavia, a criança não se sente feliz, chora , sofre pelo abandono sofrido por quem abriu mão dela para se tornar diferente.

O eu-lírico sente-se insatisfeito por não ser mais do que é. Seu desejo é poder voltar no tempo até chegar ao momento em que foi feliz, voltando a ser criança que não pensa, que apenas sente. Mas, sabe que podem ocorrer erros ao se tentar voltar ao passado, que é possível não mais encontrar a criança que agasalha em si mesmo, ficando sem norte para saber de onde veio e de onde está. Este estado de alienação do sujeito significa que se sente perdido em si mesmo, parado, infeliz e sem possibilidades de sentir, de fazer progresso (com a alma parada).

Zenóbia Collares Moreira

6 de fevereiro de 2011

O "locus horrendus" na poesia de Bocage.

Na lírica bocageana, a evocação do Locus Horrendus, mais das vezes, ultrapassa a mera descrição de um cenário lúgubre e medonho, propício ao desafogo das mágoas do poeta, para se constituir como projeção de sua paisagem interior conturbada pela onda emocional de tormentos e agonias, provocada pelos seus estados de alma depressivos, pelos dolorosos sentimentos e experiências vitais. A paisagem  torna-se, assim, uma espécie de espelho do “eu”, como no soneto em que se projeta na natureza convulsionada pela fúria dos seus elementos, a própria violência da saudade e do ciúme, causadores do seu tormento e agonia:

O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite feia;
Mugindo sobre as rochas, que salteia,
O mar, em crespos montes levantado;

Desfeitos em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta areia;
O pássaro nocturno, que vozeia
No agoureiro cipreste além pousado,

Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza. 

A expressão poética da dor, da tristeza, em Bocage, elege o aspecto do mundo objetivo que melhor metaforiza o seu mundo interior e mais se ajusta à sua perene crise existencial: a natureza noturna, ensombrada e terrífica (ó Noite amiga,/ por cuja escuridão suspiro há tanto!), o mistério das trevas com seus tenebrosos habitantes (Fantasmas vagos, mochos piadores,/ Inimigos como eu da claridade! (...) Quero a vossa medonha sociedade). Por esta via, Bocage representa o ponto culminante do sentimentalismo sombrio no Pré-Romantismo português. Em sua obra, esta vertente sombria e saturniana do sentimentalismo encontra a sua expressão justamente no comprazimento do poeta com a infelicidade, com a solidão em lugares apartados, lúgubres e medonhos, no gosto da tristeza, das paixões avassaladoras e, enfim, na sedução pela morte e suas metáforas. No caso de Bocage, a própria Noite funciona na metáfora da morte:

Oh retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
[...]
Noite escura e feia
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
[...]
Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a morte
No silêncio total da Natureza.


A morte é, na poesia de Bocage, um tema tão recorrente como o fora na poesia dos poetas barrocos. Todavia, na literatura pré-romântica, o tema mudou de roupagem, adquiriu outros sentidos, na medida em que a força motivadora que leva os poetas à evocação da morte já não é a mesma. Assim, na lírica pré-romântica portuguesa, inexiste a meditação de ordem religiosa e filosófica acerca da morte, em suas vinculações com a vida eterna, com a temporalidade do homem, etc. A morte é evocada como alívio para os males de amor, para os padecimentos da vida. O poeta pré-romântico, de modo geral, não se volta para os aspectos religiosos que envolvem a idéia da morte senão em situação em que a vida está a perigo e o confronto com a morte é inevitável. Então, surgem poesias de contrição e de súplica a Deus de uma venturosa eternidade


Zenóbia Collares Moreira . A poesia pre-romântica portuguesa. 2000