21 de agosto de 2013

A Procura da Poesia, de Carlos Drummond de Andrade


" Procura da Poesia",  de Carlos Drummond de Andrade, conforme explica A. Cândido, configura-se como uma poesia metalinguística, que se propõe a refletir sobre a composição poética. Nela o poeta desafia quem se interessa pela laboração de poesias a fazer uma reflexão acerca do mundo misterioso da palavra, expondo ao longo dos versos a sua concepção pessoal de poesia.Elas “se refugiaram na noite”, “ermas de melodia e conceito” e “ainda úmidas e impregnadas de sono” (“Procura da poesia”, RP). A tarefa do poeta não é senão hercúlea: tirar as palavras do limbo, trazê-las à luz, dar-lhes novos significados, novos sentidos que nos revelarão, no poema, o que o cotidiano opressor nos ofusca. As palavras estão em estado de dicionário, o poeta tem de ir buscá-las e combiná-las de tal forma que se revelem, adquirindo sentido pelas relações que se estabelecem entre elas, transformando palavras em poemas. O poema é a sedimentação das palavras, e ele sim é do poeta: “estes poemas são meus” (“Consideração do poema”, RP).
Drummond persegue as palavras e aqui parece estar uma chave de interpretação para compreender sua poética: a poesia existe enquanto realização material através das palavras. É a palavra o elemento material que o poeta busca para alcançar seu objetivo artístico, estético e conceitual. São elas que dão vida à poesia. Os fatos passam, os temas esquecem-se, mudam-se. As palavras ficam. São elas que vão significar. “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia” (“Procura da poesia”, RP) – a intenção, poderíamos dizer consciência, do poeta não aparece, e se aparece é através das palavras que estão lá no poema, não as que o poeta talvez gostasse de ter usado. Para o poeta,
a experiência não é autêntica em si, mas na medida em que pode ser refeita no universo do verbo. A idéia só existe como palavras, porque só recebe vida, isto é, significado, graças à escolha de uma palavras que a designa e à posição desta na estrutura do poema. O trabalho poético produz uma espécie de volta ou refluxo da palavra sobre a idéia, que então ganha uma segunda natureza, uma segunda inteligibilidade.

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e amemória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.



22 de maio de 2013

Ricardo Reis: Da Nossa Semelhança com os Deuses



Da Nossa Semelhança com os Deuses
Por nosso bem tiremos 
Julgarmo-nos deidades exiladas 
E possuindo a Vida 
Por uma autoridade primitiva 
E coeva de Jove. 

Altivamente donos de nós-mesmos, 
Usemos a existência 
Como a vila que os deuses nos concedem 
Para, esquecer o estio. 
Não de outra forma mais apoquentada 
Nos vale o esforço usarmos 
A existência indecisa e afluente 
Fatal do rio escuro. 

Como acima dos deuses o Destino 
É calmo e inexorável, 
Acima de nós-mesmos construamos 
Um fado voluntário 
Que quando nos oprima nós sejamos 
Esse que nos oprime, 
E quando entremos pela noite dentro 
Por nosso pé entremos 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

O poema é um desafio ao poder dos deuses, plasmado por meio de uma linguagem essencialmente moralista, exortando os homens para que se libertem do poder e da tirania dos deuses (senhores do nosso destino), livrando-se assim da angústia e do sofrimento existenciais.
O poeta adverte os homens para a necessidade de encarar a vida serenamente (altivamente donos de nós-mesmos), mas assumindo uma atitude de autodomínio e de auto-suficiência, com tranquilidade, não obstante a certeza de que a vida é uma caminhada para a morte.
Para podermos assumir tal auto-domínio perante o destino inexorável (do qual nem os deuses estãi isentos)
aconselha-os a construir nós mesmos o nosso destino, para podermos criar a ilusão de caminhar sobre os nossos próprios pés no mundo dos mortos(pela noite dentro).
A mensagem do poema é bem explicitada, ou seja: sublinha a idéia de que, apesar de ser uma divindade marginalizada pelos deuses, o homem é semelhante a estes. Como tal deve tomar as rédeas do próprio destino, destemidamente, com sombranceria e em estado de serenidade, de paz epicuristas.
Fiel ao estilo clássico, o poeta lança mão de todos os elementos do classicismo em suas odes: o uso da mitologia, o
vocabulário erudito e da sintaxe latinizante, o epicurismo, o estoicismo a áurea mediocritas horaciana, a teoria do fluir implacável da vida de Heráclito, dentre outros.


16 de abril de 2013

Murilo Mendes- Canção do Exílio



Murilo Mendes, nascido em 1901, na cidade de Juiz de Fora, MG, faleceu em Lisboa, no ano de 1975. Lançou-se no cenário literário do primeiro modernismo brasileiro com o livro POEMAS, que publica poesias compostas entre 1925 e 1929.
É notável a capacidade e a habilidade do poeta para transitar por uma variedade de temas e formas, pondo em prática um tipo de experimentalismo incomum em sua época. Todavia as múltiplas faces de sua obra gravitam em torno de elementos que não se dispersam, assegurando a unidade do conjunto.


CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

O poema acima está incluído no primeiro livro de Murilo Mendes, publicado na fase mais demolidora do primeiro modernismo brasileiro, cujo ideário inicial está muito bem delineado ao longo dos seus versos. O poema, escrito em versos brancos e livres, realiza uma audaciosa paródia do famoso e celebradíssimo poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, poeta integrado no Romantismo brasileiro.
Gonçalves Dias compõe o seu poema para expressar o seu amor à pátria e a sua saudade do Brasil, quando residia em Portugal. Murilo Mendes opera a desconstrução da mensagem do poeta romântico, desvia-se da retórica própria do Romantismo, abandona o lirismo saudosista do texto original e, lançando mão dos recursos disponibilizados pela “paródia”, organiza a sua versão da “Canção do Exílio” como veículo de uma rigorosa crítica à proliferação de produtos, modismos e hábitos estrangeiros no Brasil.
Compreende-se a revolta do poeta com o culto brasileiro pelos elementos estrangeiros, em detrimento das coisas genuinamente nacionais, justifica-se na medida em que contrariam os postulados do ideário nacionalista defendido pelos modernistas.