5 de junho de 2014

A temática do gótico na poesia de Augusto dos Anjos


O brasileiro Augusto dos Anjos ficou conhecido como “poeta negro” devido ao choque que seus versos causavam. Ele se utilizou de um vocabulário científico-poético, sendo inspirado pelo cientificismo, evolucionismo permeado pelo simbolismo, gerando uma poesia com tons macabros e obsessivos que mostram a destruição e decomposição física e psicológica. Em 1912 publicou o seu livro "Eu", mas que não teve a repercussão esperada. Apenas na 3ª edição, sob o título de "Eu e outras poesias" que o poeta conseguiu ser bem aceito pelo o público.

O “Poema negro” de Augusto dos Anjos 

A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte — esta carnívora assanhada —
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!


E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio! 

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas. 

A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféa
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos. 

Este poema é todo feito com base em imagens que nos dá impressão de que vários quadros foram moldados a cada estrofe. Nele há a presença da busca, que nos remete ao labirinto, pois se trata de uma busca por si mesmo, uma busca da origem. O andamento do poema é em declive (alto depois baixo). Na segunda estrofe temos a referência sobre a modernidade (“cavalo de eletricidade”) mostrando a vida como algo fugaz. As três estrofes seguidas montam o quadro da morte, no sentido de transformação, que mostra ser esse o destino reservado para todo e qualquer ser humano.

A partir da 6ª estrofe o poema apresenta uma narrativa que representa uma viagem. Da 8ª e nas três seguintes o poeta reconhece a natureza como uma entidade a ser desafiada e mostra certa rebeldia, visto que a natureza só subtraiu, subvertendo a ideia da criação (“Em que pregas os filhos que produzes/Durante os desgraçados nove meses!”). Na 12ª estrofe são encontradas referências gráficas definidas e encenações que se prolongam até a 14ª estrofe. Na 16ª estrofe o poeta se transporta da visão européia para a sua natureza terrena, demonstra que a vida e a morte estão presentes nas menores partículas (“Na molécula e no átomo... Resume”), e cria uma ambiguidade ao desafiar/praguejar a natureza e a referência a Deus. No último verso da 17ª estrofe há um retrocesso à imagem da cena descrita nas primeiras estrofes (“E um pedaço de cera derretida”), cera esta advinda da procissão em que ele estava no início do poema. Na última estrofe o poeta revela o cansaço gerado pelo grande esforço utilizado na elaboração deste poema (“Rola-me na cabeça o cérebro oco”) e mostra que tal processo fora enlouquecedora ao ponto de ele afirmar que não irá mais escrever. (“Daqui por diante não farei mais versos”).

Após a análise e reflexão do longo poema, é possível caracterizar a temática do gótico na poesia como um recurso estético do excesso, liberdade e transgressão que se volta para o interior da natureza humana, se utilizando do caos como um artifício para a criação. A estranheza provocada pela linguagem escolhida resulta na singularidade da obra literária, com o objetivo de “chamar a atenção” do leitor em toda a sua concepção de vida e transformação, demonstrando que a morte se trata de uma passagem inevitável.

Autora: Giselle Campos DRE: 108062471

24 de abril de 2014

MAS VIVEREMOS, Carlos Drummond de Andrade



Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.
Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.

Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e esperança.
Já não distinguirei, na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.

Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados,
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.
Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.

Era apenas, na noite, uma fogueira.
Voltava a noite, mais noite, mais completa.
E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas
oceanos e oceanos e oceanos.

Mas um livro, por baixo do colchão
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando,
e teu retrato, amigo, consolava.
Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.

No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.

Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei se vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.
Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.
Mas viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.

Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.
Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.
Pouco importa os dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se façam
sinais da praia ao rubro couraçado.
Ele chegará, ele viaja o mundo.

E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.
Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
Essa rosa, esse canto, essa palavra.
( Carlos Drummond de Andrade )

Neste poema, Drummond discorre acerca de mundo perdido no tempo, um mundo mais protetor, mais humano, mais solidário e aconchegante, contrapondo-o ao mundo atual, onde pontifica uma atmosfera fria, uma realidade despersonalizada, distante, na qual viceja a mais aflitiva solidão, pesada, angustiante, exaustiva. 
A áspera realidade da cidade inescapável, tumultuada e dolorosa. Mas a dor é ultrapassada por um esforço extremo, chega ao limite do suportável através de um anestesiamento e é esquecida: "Toda melancolia dissipou-se / em sol, em sangue, em vozes de protesto". Da dor renasce um homem diferente. Mais cansado, mais maduro, com menos ilusões, mas vitorioso, pois é um sobrevivente.
O poeta faz referência à dificuldade da própria criação do poema: "E que dificuldade de falar! / Nem palavras nem códigos: apenas montanhas e montanhas e montanhas...". Ainda que de um ponto de vista extremamente amargo, lança uma voz de esperança, mesmo em meio a esta nova e dura realidade. A remissão desse homem, que para ultrapassar a dor perdeu a alma, se dá através da força do poema, do poder da arte. Somente ela poderá religá-lo à sua natureza, somente ela poderá dar-lhe identidade. Enquanto o homem conseguir criar ou fruir da criação, sua individualidade não se perdeu: "Pouco importa que dedos se desliguem / e não se escrevam cartas nem se façam / sinais da praia ao rubro couraçado. / Ele chegará, ele viaja o mundo... Ele caminhará nas avenidas, / entrará nas casas, abolirá os mortos. / Ele viaja sempre, esse navio, / essa rosa, esse canto, essa palavra."



29 de dezembro de 2013

Álvaro de Campos. Lisbon Reviseted ( de 1926)



Nada me prende a nada!
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne.
O que não sei que seja...
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonho irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua.
Não há na travessa achada número de porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido, 
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos; 
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é tão do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
De ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo, 
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez  sonho aqui...
Eu? Mas sou eu mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo torei a voltar?

Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de cotas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada  fragmento fatídico vejo só um bocado de mim...
Um bocado de ti e de mim!...


O poema se desenvolve em torno do drama do eu-lírico frustrado e desiludido de tudo, que retorna à sua cidade e revê-se nela, identifica-se com ela, tão fantasma como ele. Desenvolvido em duas partes, nos primeiros trinta versos é focado o eu destroçado do poeta, daí até o final nos é dada a visão subjetiva e amarga que ele tem de Lisboa. 
Este poema se insere na terceira fase da produção poética de Álvaro de Campos, a fase depressiva, voltando a expressar a angústia do eu fragmentado e a saudade  de uma infância perdida. É, afinal, o problema metafísico de Pessoa ortônimo, o problema da identidade do eu que regressa à alma de Álvaro de Campos, esse "fantasma a errar em salas de recordações/ ...Do castelo maldito de ter que reviver..."
Tanto o problema da vida como o problema do eu acompanharam o poeta  nesse seu atormentado passeio pela cidade revisitada, carregado de desilusão e pessimismo.