23 de dezembro de 2010

Fresta, poema de Fernando Pessoa



Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,

E tudo é névoas e muros

Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou soterrado,

Vejo o longínquo horizonte

Cheio de sol posto ou nado,

Revivo, existo, conheço;
E, inda que seja ilusão

O exterior em que me esqueço,

Nada mais quero nem peço:

Entrego-lhe o coração.


Mesmo estando sob o efeito trevoso dos momentos de depressão, de melancolia, tomado pelo vazio interior que o angustia e o aparta do mundo, basta somente um instante em que veja o “longínquo horizonte” iluminado de sol poente ou nascente, para que o eu-lírico reviva, volte a existir e reconheça o mundo exterior.
E não importando se este é pura ilusão, sem desejar nada mais além que esquecer de si mesmo, entrega-lhe o coração inquieto.
O eu-lírico, anulado em seu mundo enevoado, age como se o mundo ilusório fosse uma luz no final do túnel ou uma forma de suportar, por alguns momentos, a dura realidade e o sem sentido da vida.

2 comentários:

Flavia Inara disse...

Qual é o Valor desse poema para o leitor ?

Zenóbia Collares Moreira Cunha disse...

Flávia, acredito que quando você estudar mais, ampliar e aprofundar seus conhecimentos literários, descobrirá a resposta para a sua pergunta.