16 de dezembro de 2011

Sophia de Mello B. Andresen. Poesia


Copiado no Livro VI de Sophia de Mello Breyner Andresen, este poema é dos mais belos e significativos da autora, galardoada com o Prêmio Camões, após a sua publicação, em 1962..
Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Livro Sexto (1962)

Logo à primeira leitura do poema somos confrontados com a densa subjetividade do mesmo, seja pelo emprego de metáforas e imagens profundamente subjetivas, seja pelo uso de uma linguagem plurissignificativa que, por isso mesmo, possibilita várias leituras, inclusive uma leitura do texto de ordem amorosa que revelaria a decisão do eu - lírico de deixar para trás todo o seu passado e conquistas para seguir o companheiro (tu) que a ajuda a suportar os atropelos inerentes à sua condição humana.

Todavia, uma leitura do poema como se este fosse um devaneio poético ditado pelo desejo de completude no amor ensejaria uma compreensão mais espiritualizada da mensagem nele plasmada? Este questionamento pode ser esclarecido se atentarmos para o que revelam os versos da primeira estrofe, cujas palavras traduzem um movimento de busca de infinito, de verdade, de essência e, mais que tudo, de intemporalidade.

Responde a esta pergunta a 1º estrofe, cujo conjunto de palavras assume o valor de procura de infinito, intemporalidade, essência, eterno, verdade, que tem continuidade na 2º estrofe

“Ao lado de teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
E abandonei os jardins do paraíso

Na primeira estrofe, fica evidente o desejo do eu - lírico de não mais ser sozinha na difícil travessia do “deserto do mundo”. A segunda estrofe refere-se às dificuldades enfrentadas em conseqüência das escolhas que fez, ou seja: deixar para trás, relegado ao esquecimento, todo o passado com sua bagagem de vivências felizes, lembranças e afetos, despojando-se de tudo o que possuía: tesouros, segredos, tempo, ilusões, enfim: tudo quanto é finito, passageiro, contingencial, existencial, superficial e sem sentido e vai à procura da essência do ser, da intemporalidade, do que perdurável e da verdade absoluta, representada pelo “Tu”.

Com o despojamento indispensável a um ser “iniciado” nas esferas do transcendente, o eu - lírico se une à divindade. Consciente da sua nudez humana («Sem os espelhos vi que estava nua») declara o seu grande anseio e única meta existencial, ou seja: realizar a superação absoluta de sua difícil e aterrorizante condição de ser temporal, vencer os obstáculos interpostos pelo medo e, purificada, entrar em perfeita comunhão com a divindade, o “Tu” cuja companhia busca. Esta divindade que nutre e sustem a verdade, constitui o sentido da vida e a razão de viver do sujeito: («Ao lado dos teus passos caminhei»), o companheiro que cobriu sua nudez (Por isso com teus gestos me vestiste) e o Mestre que tudo lhe ensinou, que a libertou de si mesma e a encaminhou ao crescimento interior (E aprendi a viver em pleno vento), à libertação, cuja leveza indicia a transformação do sujeito.
 Zenóbia Collares Moreira Cunha

13 de dezembro de 2011

Luís de Camões: "Erros meus, má fortuna, amor ardente...


Camões, quando se trata de expressar os males que sofreu ao longo da vida, por causa do amor, não mede esforços para se queixar reiteradamente da perseguição da “inexorável Fortuna” e dos próprios “erros” cometidos, que tantos padecimentos lhe trouxeram. 
Contudo, é ao Amor que o poeta culpabiliza de forma decisiva  por suas vicissitudes amorosas. Ele é a causa das suas angústias, padecimentos e agitações interiores. Em sua lírica, vários sonetos abordam o tema, reiterando os malesque lhe são causados por esse sentimento. Dentre tantos, o que se segue, figura entre os mais pungentes e belos sonetos do poeta:

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente

A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram,
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;

Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.

Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse 
Este meu duro Gênio de vinganças!

Logo à primeira leitura, podemos observar que o soneto se organiza em duas unidades de sentido: A primeira unidade, constituída por doze dos quatorze versos, tem um caráter confessional de cunho autobiográfico, que trata da enumeração das causas que ensejaram as vicissitudes do eu - lírico, ao longo de sua vida, t
oda ela transcorrida em desventuras, a vida e o amor só oferecem sofrimento e desenganos para o poeta.
Daí o lamentoso e amargurado tom das suas reflexões acerca da ação maléfica de três poderosos elementos, aos quais atribui uma conotação muito negativa - os seus próprios erros, a má fortuna e o amor ardente – todos conjurados para o fazerem infeliz. Os “erros” são negativos por sua própria natureza transgressiva; a “Fortuna” é adjetivada como má, e o “Amor”, sendo ardente, com a sua carga de paixão avassaladora, propende para o exagero desmedido, cujas conseqüências dolorosas ultrapassaram os males decorrentes dos atropelos causados pelos outros dois agentes dos seus infortúnios. O amor ardente foi quem mais tiranizou o poeta com os seus enganos. Assim, ele “somente” seria o bastante para promover todos os padecimentos do poeta. 
Como acontece em muitos outros sonetos do poeta, a linguagem que plasma o soneto privilegia um tipo de discurso hiperbólico e a primeira pessoa do singular, assinalando a hipertrofia do eu, o tom dramático e confessional que tipifica o lirismo maneirista camoniano.
O eu - lírico reconhece que cometeu muitos erros (errei todo o discurso dos meus anos), admite que, com suas mal fundadas esperanças, predestinadas ao fracasso, ensejou os castigos e os revezes da má fortuna.
É do tempo presente que o poeta relembra tudo que passou, o seu passado permeado pelo sofrimento (“a grande dor das coisas que passaram”) pela desesperança e pelo desengano amoroso que o fizeram melancólico e dominado pelo gosto de ser triste (“Que as magoadas iras me ensinaram, / A não querer já nunca ser contente”)
Esse gosto de ser triste e o culto à melancolia tipificam a lírica dos poetas maneirista, da mesma forma que a visão desencantada e pessimista em relação à vida e ao amor, sempre presentes na poesia de Camões,
A segunda unidade compreende apenas os dois últimos versos, e exprime a revolta do eu - lírico e seu conseqüente desejo de fartar o seu “duro gênio de vinganças” .
Zenóbia Collares Moreira Cunha
 

11 de dezembro de 2011

João Cabral de Melo Neto: "Num monumento à aspirina".


João Cabral de Melo Neto, poeta nascido em Pernambuco e falecido no ano de 1999, sofreu as terrível dores de enxaqueca durante grande parte de sua vida.
Bom conhecedor das torturantes crises da doença, que o deixavam impedido de escrever tantas vezes, resolveu fazer de um assunto tão corriqueiro e banal, como esse, o tema do estranho, porém muito criativo e interessante poema denominado "Num monumento à aspirina”. 
Ei-lo, a seguir: 
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina

O magnífico poeta faz o elogio do produto, lançando mão da ironia mais jocosa, à qual alia o linguajar da propaganda comercial, não descartando a louvação aos efeitos prodigiosos da droga no alívio da cefaléia.
Nestes termos, o mágico comprimido não serve apenas para livrar a visão dos sintomas da cefaléia, funcionando também como cura para os males do corpo inteiro.

(...) porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

Nas cefaléias é comum os distúrbios visuais de variados tipos. A claridade incomoda e a visão fica embaciada. Daí a analogia de Cabral da aspirina com as lentes dos óculos, pois de fato um dos efeitos do remédio é permitir, como a lente, ver com nitidez.
A aspirina passa a ser encarada como se fosse o sol, seja por seu formato redondo e sua coloração branca, seja porque devolve a luz aos olhos do doente. Ou seja, uma vez engolida, transforma-se numa lente. Só quem sofre de enchaquecas e conhece o alívio de livrar-se dos seus efeitos pode avaliar o aparente exagero do poeta.
É bem próprio de João Cabral a tematização antilírica de elementos prosaicos, de dados do cotidiano, em poemas que privilegiam a linguagem direta, substantiva e livre de exageros metafóricos.
Só um grande e talentoso poeta consegue transformar um assunto tão comum em um poema com a qualidade e o fascínio que encontramos em toda a sua obra. João Cabral de Melo Neto foi um poeta antilírico por excelência, sempre avesso à melodia e à musicalidade do verso. Por meio de um severo e vigilante trabalho de linguagem e de construção poética, semelhante à uma obra de engenharia, sua poesia dura, seca, enxuta e precisa, feita de "pedras" e a "palo seco", como ele mesmo dizia, inspirava-se na aridez das caatingas do sertão pernambucano.

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Por Zenóbia Collares Moreira

25 de novembro de 2011

Álvaro de Campos: Poema em linha reta.


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

***
O “Poema em linha reta” começa com um verso que pode causar estranheza: “Eu nunca conheci quem tivesse levado porrada”, ao qual se segue o desenvolvimento da idéia centralizadora que deseja comunicar. Emanada da comparação que ele faz de sua pessoa com todas as outras que conhece ou que conheceu ao longo de sua vida. De tal cotejo, assoma-lhe o sentimento de ser ele um ser singular, único, diferenciadamente inferior aos demais que têm sido campeões em tudo. Esta constatação o irrita, pois revolta-o o fato de se ver rodeado, como ele afirma – “por príncipes” e “semideuses”.

E, como ele mesmo diz, mesmo quando os outros confessam, em raros momentos de franqueza, quando fazem tímidos comentários acerca dos seus erros, tratam logo de esclarecerem seus equívocos, protegendo-se, cuidadosamente, de eventuais ameaças de desmoralização. Podem, vez ou outra, revelar falhas leves, mas calam sistematicamente quaisquer ações espúrias tenham praticado. Posem até confessarem ter cometido violências, mas guardam segredo acerca das suas fraquezas e covardia.

Daí origina-se a irônica e sarcástica referência à velada hipocrisia da sociedade em que transita: “Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho.” Fica óbvio a retórica da provocação, da censura, da reprovação ao hipócrita modo de estarem no mundo, a sua rejeição ao falso moralismo de uma sociedade que vive de aparências. Em toda a revolta do poeta, percebe-se, no entanto, um melancólico eco de tristeza, de desencanto, de desesperança e de consternação.

A sua interrogação, ao final do poema (“Como posso eu falar com meus superiores sem titubear?”) deixa explícita a situação contrastante e absurda na qual ele se sente em relação à posição desses indivíduos tão especiais, perfeitos e irretorquíveis. Na irônica comparação do poeta, só lhe resta a fazer a definição do seu ser humanamente verdadeiro, real, sem as máscaras do parecer:

***
“Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado [...]”
“Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

***
Como afirma Leandro Konder, “Poema em linha reta” é o desdobramento da autocrítica, não mais numa crítica ao outro, mas uma crítica à falta de autocrítica dos outros. Quer dizer, acho que se pode enxergar nesse poema a revolta de alguém que se mostra efetivamente capaz de se interpelar a respeito do seu lado noturno, digamos. Discorre sobre o que ela tem de mais problemático, mais doloroso e mais fracassado, sobre sua própria vileza, e vê essa sua franqueza, essa sua coragem resvalar na muralha hipócrita de um sistema que está alicerçado em uma enfática autovalorização artificial, por parte das pessoas em geral.”
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Autora: Zenóbia Collares Moreira


22 de novembro de 2011

José Régio: Cântico Negro.

 José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde, em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta, que se impôs. Com o livro de estreia "Poemas de Deus e do Diabo" (1925), apresentou quase todos os temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

"Vem por aqui" --dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios,
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
--Sei que não vou por aí!

COMENTÁRIO

Dotado de expressiva força dramática Cântico Negro afirma-se como um grito de revolta e sede de liberdade bem típico dos adeptos do movimento Presença, do qual José Régio foi um exponencial. Vale, no entanto, salientar que nem todos os poetas presencistas lograram elaborar um poema com a sua força retórica, veemência poética e eloqüente teatralidade.
A temática desenvolvida em Cântico Negro já fora desenvolvida por Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, no seu célebre poema Lisboa Revisitada. Em ambos se faz presente a mesma energia transgressiva, a mesma rebeldia em relação a um mundo que parece ter parado no tempo, arrastando consigo, para a estagnação, a expressão poética.
Régio rejeita a herança literária dos que o antecederam, despreza o que é fácil e sem novidades, desdenha seguir por caminhos abertos por outros e as limitações de modelos já dessorados. Em lugar de tudo isto, dá seu grito de independência, defende seu direito de abrir seus próprios caminhos, colocando-se contra um sistema que esmaga a identidade pessoal, que em nome da moral, dos costumes da lei e de um conjunto de regras priva o homem seu poder decisório, impondo-lhe condutas, negando-lhe a legitimidade do direito de ser livre para escolher, decidir e descobrir de acordo com sua apetência pessoal, sua particular visão de mundo.
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Zenóbia Collares Moreira

16 de novembro de 2011

António Ramos Rosa: Não posso adiar o coração


Hoje, assaltaram-me saudades de velhas amizades que deixei em Lisboa. Pus-me a rememorar momentos inesquecíveis de convivência fraterna e de longas trocas de impressões literárias com um grande amigo, o poeta português António Ramos Rosa, com quem muito aprendi sobre os mistérios da criação poética, especialmente os que presidem os processos de criação dele próprio. É difícil esquecer uma personalidade tão rica, uma pessoa tão fascinante.
Considerado pela crítica literária lusitana e européia uma das personalidades mais importantes e mais representativas da poesia contemporânea em Portugal. Encantador em sua simplicidade e ausência absoluta de vaidade, amável, intensamente afetuoso e receptivo, Ramos Rosa nos seduz logo ao primeiro contato.
Não é, portanto, de admirar que tenha tantas pessoas amigas, entrando e saindo de sua casa, onde são sempre recebidas por ele e por Agripina, sua esposa e também poeta, com um abraço caloroso e um sorriso generoso de boas vindas, sempre seguidos de um saboroso chá, servido em uma mesa caprichosamente posta.
Autor de uma vasta obra, Ramos Rosa figura entre os escritores mais premiados em seu país e dentre os que mais tiveram livros traduzidos e publicados em vários outros países.
Segundo afirma António Guerreiro, um dos críticos de sua obra, "para Ramos Rosa, escrever não é apenas um exercício que se cumpre por uma determinação estética. Muito mais radicalmente, é um programa de vida, uma necessidade vital e ética que encontra no poema uma estratégia que lhe orienta o sentido e os horizontes".
A poesia que selecionei para postar aqui, uma das minhas preferidas, foi escolhida no livro “Viagem através de uma nebulosa", publicado em 1988.

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século
a minha vida nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


Vale a pena, especialmente para quem não a conhece, conhecer a vasta obra poética de António Ramos Rosa, disponível, também, nas livrarias do Brasil. Apesar de, em alguns livros, as poesias parecerem muito herméticas e, por isso mesmo, exigirem mais do leitor, à medida em que as lemos e relemos, vamos religando as unidades de sentido que dão a chave para a compreensão do universo mental, filosófico e da linguagem aparentemente cifrada do poeta.

Por Zenóbia Collares Moreira

25 de outubro de 2011

Álvaro de campos: Lisboa revisitada

Lisboa Revisitada é um dos poemas de Álvaro de Campos, heterônimo pessoano, mais representativo do movimento Orpheu, instaurador do Modernismo em Portugal. Apesar de não ter existência física, constituindo-se apenas como um dos alter egos de Fernando Pessoa, Campos é considerado a figura exponencial do Modernismo português e um dos maiores e mais talentosos poetas do século XX. 
Sensacionista e futurista, o poeta abraçou as teorias revolucionárias modernistas de Marinetti e deu à literatura suas grandes Odes de exaltação à velocidade, à maquina, aos avanços da técnica e das ciências, encarnando o homem moderno, dominado por obsessões, torturado pela angústia existencial e por neuroses típicas do trepidante mundo moderno. Daí a oscilação de sua poesia entre duas fases opostas e coexistentes: a fase sensacionista/futurista das grandes Odes, e a fase depressiva na qual aguça-se a consciência do poeta de ser um sujeito fragmentado em perene conflito os valores sociais que execra.

LISBON REVISITED (Lisboa Revisitada 1923) 
(Álvaro de Campos) 


Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer. 
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-a!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro a técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus! 
Queriam-me casado, fútil quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos? 

Não me peguem no braço! 
Não gosto que me peguem no braço. 
Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja a companhia! 

Ó céu azul – o mesmo de minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta!

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 

Lisboa Revisitada (1923) se inscreve na fase depressiva do poeta. Daí a linguagem ríspida, irritada e contundente que plasma os seus versos, constituídos pela negação ao conjunto de valores típicos da sociedade burguesa moderna sua contemporânea. Aliás, os mesmos valores que ele exalta freneticamente em suas Odes futuristas, principalmente na Ode Triunfal. Não se trata, no entanto de contradição absurda do poeta, mas sim de poemas escritos em fases paradoxalmente diferentes de sua expressão poética, oscilante entre a euforia futurista e a disforia de sua vertente depressiva, na qual ironiza e rejeita as conquistas da civilização moderna, como sejam: as suas conclusões, a sua estética, a sua moral, o seu sistema completo das ciências, das artes e da civilização moderna. Sua negação é alicerçada nos demolidores esquemas da ironia e do sarcasmo contundentes. 
Na estrofe final, o tom do discurso muda, torna-se nitidamente depressivo, pausado, melancólico e passa a focalizar Lisboa a cidade onde nasceu. Mas, logo volta à exasperação e aos brados de rejeição às coisas que lhe querem impor. 
Há um sentido metafórico neste poeta que remete para a recusa de toda a tradição literária acadêmica anterior ao modernismo. Como José Régio no poema Orpheu Negro, Campos não admite que lhe apontem o caminho a seguir, tampouco que tentem conduzi-lo (não me peguem no braço [...] quero ser sozinho) pelos caminhos das novidades estéticas que todos seguem com entusiasmo, empunhando a bandeira orphica. 
O poeta busca a originalidade, deseja seguir a sua própria "loucura", desbravar sua própria trilha no emaranhado da selva literária na qual se confundem os "ismos" com ares de "escolas e cheirando a academicismo. 

Zenóbia Collares Moreira. 









18 de outubro de 2011

Vinícius de Moraes: Soneto de Fidelidade...




De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que ao mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quanto mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama.

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Antologia poética.   Rio de Janeiro. A Noite, 1949.)

O Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes, poeta brasileiro já falecido, é considerado como um dos mais belos e bem construídos da poesia brasileira. Vale notar um timbre camoniano a percorrer os versos do soneto.
Logo no primeiro quarteto, o eu-lírico explicita a sua atitude perante o amor que sente, ou seja, dedicará uma atenção absoluta e um zelo sem medidas ao sentimento amoroso, de tal forma que, mesmo confrontado com outros “encantos”, o Amor resistirá, manter-se-á fiel, afirmando-se, crescendo e fortalecendo-se em sem pensamento.
No quarteto seguinte, o poeta expressa seu desejo de viver o Amor intensamente “em cada momento”, de louvá-lo em sua poesia, solidário em suas alegrias e tristezas, rindo com seus contentamentos e derramando lágrimas em seus momentos de pesar.  A seguir, ele declara seu desejo: ter uma longa vida, sem que a morte o ameace. Morte que constitui a angústia de quem vive a dúvida por ignorar a data da partida, e que não lhe venha “a triste solidão” resultante do amor extinto.
Finalmente, no último terceto, o autor tenta finalizar o seu pensamento, expressando seu anseio de poder, no futuro, falar de forma positiva do Amor que teve. Para isto, é necessário que este não seja imortal, uma vez que, sendo chama (ardente), pode apagar-se com algum revés do destino, mas que seja infinito, isto é, verdadeiro, intenso e pleno, enquanto dure.
Vale notar nesse soneto a concisão e a clareza de linguagem, o comedimento na expressão do sentimento, características clássicas que eliminaram as abordagens alegóricas e a retórica emocional, declamatória presentes na fase inicial da produção poética de Vinícius de Moraes.

Zenóbia Collares Moreira